terça-feira, 3 de outubro de 2017

44

   Fiz a capicua no passado domingo.
    A Magda e o Adolescente Gay (o Francisco estava doente) aceitaram o meu convite e, no âmbito do Festival do Silêncio, fomos até à Rua Cor-de-Rosa. A livraria-bar Menina e Moça foi a escolhida, uma boa opção, pois estava suficientemente perto do palco, na rua, para ouvirmos dentro da sala. Um sítio giro, muito interessante e acolhedor.
   Recebi um extraordinário presente  e fiquei emocionada, pois era um livro que queria ter há muito tempo.  :-) (adorei, obrigada aos três).







 Foi uma tarde e princípio de noite excelentes, entre tosta de abacate, torrada de tomate, bolo de suspiro e chocolate e música ao vivo e muita, muita conversa.




 Uma paragem obrigatória na Fábrica dos Bolos, a meio da Almirante Reis (o Adolescente acompanhou-me neste passeio nocturno), apanhada finalmente aberta (abre das 9 da noite às 2 da matina - famosa pelas suas bolas de berlim, que comprei e comi enquanto esperava pelo comboio em Roma-Areeiro).



  Por falar em bolos (pois não há dois sem três), o André Mendonça, que conheci no jantar da blogosfera promovido pelo Adolescente Gay, fez-me um bolo de espinafres e noz divinal, que levei para o trabalho. As minhas colegas adoraram (eu também, :p )

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Camilha

   Volto atrás, ali ao post do Miguel. Faz uma referência à camilha com braseira. Em casa da minha avó também havia uma, na sala.
   O frio, o frio e a chuva, aqueles invernos de antigamente, nas férias do natal da aldeia, eram o mais difícil de aguentar. Mas, a esses momentos maus, associam-se outros, boas recordações, como as tardes passadas ao redor da camilha.
   Depois das querelas das irmãs, dividiu-se a grande casa em duas. Os meus avós foram obrigados a transformar a loja numa cozinha, muito escura, porque só tinha uma pequena janela, lareira a um canto, lava-loiça com uma cuba no canto oposto, um fogão, só muito mais tarde tivemos um frigorífico, oferecido, a grande mesa ao centro, e uma comprida lâmpada no tecto que passava a maior parte do tempo a tremer e a apagar-se, de modo que havia um candeeiro a petróleo sobre a lareira, que estava quase sempre aceso.
   Não havia acesso interior da cozinha para o resto da casa. No pequeno pátio, tiveram de construir umas escadas em cimento, toscamente, no meio de pequenas rochas, para o primeiro andar, abrindo-se a porta directamente para a sala. E, durante o inverno, lá subia a minha avó com a braseira, desde a cozinha, o mais rapidamente possível para não arrefecer, e colocava-a no buraco da camilha. Baixava as duas toalhas, uma grande de tecido, redonda, que tapava a mesa, e uma de renda com franjas, nas quais eu entretinha-me a fazer pequenas tranças.
   Ora a ver televisão, ora a jogar algum jogo que havia lá por casa, cartas, Ludo, cubos de madeira com as figuras da Disney recebidos num Natal, mas, principalmente, a ler as revistas do Pato Donald e afins, ainda e durante muito tempo em português do Brasil, com aqueles anúncios dos cursos à distância (violão, rádio e telecomunicações), e do Boticário na contracapa (ainda faltaria muitos anos até entrar num Boticário em Portugal), ou do Tex e do Condor, assim passava as tardes chuvosas e frias das férias do Natal, apoiando os pés descalços na madeira, tão próximo quanto possível da braseira, até começar a sentir o calor na ponta dos dedos. Retirava os pés num instante e voltava a pô-los lá, um gesto que se repetia até as cinzas se apagarem e a braseira arrefecer e, como acontecia todos os anos, até deixar de haver férias de Natal na aldeia, as meias grossas de feltro ficavam sempre chamuscadas nas pontas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Martin Landau; ficção científica; Grundig

   Na minha casa, em criança, havia uma televisão Grundig vermelha. A minha avó tinha uma igual, mas verde, um verde baço cor de azeitona, enquanto a nossa era de um vermelho brilhante. A preto e branco, claro, com três botões na horizontal que deslizavam para a direita: um para o som e dois que regulavam a luminosidade e o grão da imagem. Também tinha outros botões (redondos) para os canais, mas como eram, apenas, dois, a RTP 1 e a RTP 2, a minha mãe tinha sintonizado só os dois primeiros naquelas frequências.
   Foi nesse grande aparelho - grande para aquela altura, finais dos anos 1970 até meio da década de 1980 - que eu vi séries memoráveis. O Miguel faz um tributo ao Martin Landau e eu, bem, eu cresci com o Martin Landau e com o Espaço 1999, graças às muitas reposições que a RTP apresentou. E também vi Missão Impossível, com ele e com a sua esposa Barbara, que também participa no Espaço 1999.
   Espaço 1999, Galáctica, O Caminho das Estrelas, Buck Rogers no século XXV (infelizmente, só me lembro de a RTP ter passado apenas uma vez esta série), e também os desenhos animados futuristas japoneses Conan, o Rapaz do Futuro, (entre muitos e muitos desenhos animados, felizmente fui bem entretida em criança) tudo visto numa TV Grundig, uma das melhores televisões que passaram lá por casa.
   Uma questão: a Grundig ainda existe?

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sílvia Pérez Cruz; Max Richter

   Este é um daqueles posts dois em um, tal como o anterior, mas o tema é o mesmo: música.

   No mês passado, fui assistir ao concerto da Sílvia Perez Cruz no CCB, que apresentou o seu último CD 'Vestida de Nit'. O Grande Auditório estava esgotado (tinha comprado o bilhete há muito tempo), embora com alguns lugares em pé lá no alto, a plateia delirante, cúmplice, pedindo, ou melhor, gritando, algumas canções mais conhecidas. Mas, até ela as cantar (que, afinal, estavam previstas no alinhamento), a SPC foi desfiando conversa entre canções.
   O Miguel já tinha escrito sobre o concerto em Coimbra, o João Nuno Silva (que não conheço, mas pesquisei  o nome e o concerto em Portugal e surgiu o seu blogue) escreveu, também, um excelente post e eu acrescento que este concerto contou com dois convidados, e, assim, foram mais três músicas que contribuiram, também, para uma excelente noite: o pianista Júlio Resende, que já tinha trabalhado com ela há uns anos, e o Salvador Sobral.
   Podem ler mais sobre este concerto na Fest Magazine.
  
~~~~~

   Estou sempre a repetir-me, mas o Bitaites é um dos melhores blogues que conheço. Já aqui o escrevi há que tempos e, sim, é muito, muito bom. E agora, mais uma vez, não desilude.
   Eu não vejo muitas séries na televisão, mas, graças a este texto, fui ouvir a fabulosa banda sonora da série The Leftovers. Oiçam, sim, é só isso que deixo aqui escrito. BRILHANTE!


   Link para o post; a banda sonora está no fim, mas não deixem de ler o texto.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A perna

   Pensou que tinha morrido. Deu-lhe, desde criança, uma vida breve. As más recordações da infância, nas muitas tardes passadas no trabalho da sua mãe, resumiam-se àquela mulher franzida, e no azedume com que lhe falava, da mesma forma que se dirigia às colegas, como se as elas fossem culpadas pela sua deficiência, e no tom estridente que empregava. Vinte e cinco anos depois, fica surpreendida por a ver. Não tem dúvidas, embora esteja um pouco longe. É ela, com a perna direita defeituosa a baloiçar no ar, apoiando o corpo naquelas duas muletas tão familiares. O que recorda, agora, tantos anos depois, é ela a subir o pequeno lanço de escadas de granito do trabalho, e no olhar que lhe lança, o rosto magríssimo que termina num queixo pontiagudo e na mal-formada perna direita dobrada naquela forma estranha, como uma perna de rã sem vigor.












Exposição de Rodrigues da Costa, patente em vários locais da cidade de Viseu.

terça-feira, 13 de junho de 2017

8.º jantar de blogues; Daniel Faria

   No passado dia 3 de junho, realizou-se o 8.º jantar de blogues, organizado, mais uma vez, pelo Adolescente Gay. Escuso de comentar muito mais, para além de referir que gostei muito; podem ler aqui a emotiva descrição do organizador deste evento.


  Qual o meu espanto, na conversa com o blogger do 'Moradas de Deus' (a vida tem destas coisas - na tarde do dia anterior tinha ido à Feira do Livro, de propósito para comprar um livro do dia) quando ele disse o quanto gostava do poeta Daniel Faria (eu também gosto muito). Pois o livro do dia que comprei foi, exactamente, 'Poesia'. E é assim, estes encontros têm destas coincidências ou, como sublinhei num livro que li há muito pouco tempo: "Quem é que disse que as coincidências são só a maneira de Deus se manter anónimo?"





sábado, 10 de junho de 2017

Coimbra, o Miguel e o Juju

   Ontem, fui a Coimbra ver o Miguel e o Juju. O Juju dá pelo nome de Zezinho para o pessoal de Coimbra e é o pequeno tigre do Miguel. É assim um César em miniatura, considerando que o meu gato pesa mais de seis quilos :-)




O Juju adora mãos

   Há quase dois anos que não via este bichanito, Nessa altura, devia ter meia dúzia de meses e agora é um exímio caçador de ratinhos de pano, como se pode constatar na selfie:

O Juju a hipnotizar o ratinho
 
   A tarde foi passada na esplanada do bar Galeria Santa Clara, de que não resta foto para a posteridade, mas ficam as recordações de um excelente dia.

domingo, 28 de maio de 2017

Sílvia Pérez Cruz - Pequeño Vals Vienés



En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados.
Hay frescas guirnaldas de llanto.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orilla tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.


(Este poema de Federico García Lorca também é cantado por Leonard Cohen: Take This Waltz)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Sílvia Pérez Cruz - Abril 74


'ABRIL 74' (EN ESPAÑOL)

Compañeros, si sabéis donde duerme la luna blanca,
decidla que la quiero
pero que no puedo acercarme a marla,
porque aún hay combate.

Compañeros, si conocéis el canto de la sirena,
allá en medio del mar,
yo me acercaria a buscarla,
pero aún hay combete.

Y si un triste azar me detiene y doy en tierra,
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado,
si ganamos el combate.

Compañeros, si buscáis las primaveras libres,
con vosotros quiero ir
que para poder vivirlas
me hice soldado.

Y si un triste azar me detiene y doy en tierra
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado.
Cuando ganemos el combate.

domingo, 21 de maio de 2017

Sílvia Pérez Cruz - Todo hombre



Dicen que hay
una manera mejor
de contar esta historia,
hay que brindar.
Tener piedad
con honradez
no es tan fácil,
no lo es.

Todo hombre que pega a otro hombre
es un hijo que pega a otro hijo,
todo hombre que roba a otro hombre,
es el hijo de una madre
que era nieta y bisnieta
y lloraba y flotaba.

Se despistó,
perdió el orgullo, las llaves
y el nombre de hombre normal.
Hay que dormir.

Todo pobre que pide a otro hombre
es un hijo que pide a otro hijo,
todo rico que es un pobre hombre
es el hijo de una madre
que era nieta y bisnieta
y pedía y dormía.

Mal pescador
el que no sabe de vientos,
ni nombra a los peces,
ni quiere mojarse en el mar,
ni cortarse la boca con sol y sal.
Cambiar o remar.
Ir a misa o repicar.

Todo hombre que echa a otro hombre
es un hijo que echa a otro hijo,
todo padre que echa a otro padre
es el hijo de una madre
que era nieta y bisnieta
y nacía y moría.

Conquistador,
provocador,
vendes humo
al peor postor.
La dignidad
pierde valor
por tres duros
y un bofetón.

Levantemos la copa y el sol
del poeta que atiende el dolor
que se inspira y expira perdón
que se esconde a llorar a un rincón
que declina con alma y pudor
en voz baja y desde lejos
él resiste y persiste
y confía en su don.