terça-feira, 13 de junho de 2017

8.º jantar de blogues; Daniel Faria

   No passado dia 3 de junho, realizou-se o 8.º jantar de blogues, organizado, mais uma vez, pelo Adolescente Gay. Escuso de comentar muito mais, para além de referir que gostei muito; podem ler aqui a emotiva descrição do organizador deste evento.


  Qual o meu espanto, na conversa com o blogger do 'Moradas de Deus' (a vida tem destas coisas - na tarde do dia anterior tinha ido à Feira do Livro, de propósito para comprar um livro do dia) quando ele disse o quanto gostava do poeta Daniel Faria (eu também gosto muito). Pois o livro do dia que comprei foi, exactamente, 'Poesia'. E é assim, estes encontros têm destas coincidências ou, como sublinhei num livro que li há muito pouco tempo: "Quem é que disse que as coincidências são só a maneira de Deus se manter anónimo?"





sábado, 10 de junho de 2017

Coimbra, o Miguel e o Juju

   Ontem, fui a Coimbra ver o Miguel e o Juju. O Juju dá pelo nome de Zezinho para o pessoal de Coimbra e é o pequeno tigre do Miguel. É assim um César em miniatura, considerando que o meu gato pesa mais de seis quilos :-)




O Juju adora mãos

   Há quase dois anos que não via este bichanito, Nessa altura, devia ter meia dúzia de meses e agora é um exímio caçador de ratinhos de pano, como se pode constatar na selfie:

O Juju a hipnotizar o ratinho
 
   A tarde foi passada na esplanada do bar Galeria Santa Clara, de que não resta foto para a posteridade, mas ficam as recordações de um excelente dia.

domingo, 28 de maio de 2017

Sílvia Pérez Cruz - Pequeño Vals Vienés



En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados.
Hay frescas guirnaldas de llanto.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
        ¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orilla tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.


(Este poema de Federico García Lorca também é cantado por Leonard Cohen: Take This Waltz)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Sílvia Pérez Cruz - Abril 74


'ABRIL 74' (EN ESPAÑOL)

Compañeros, si sabéis donde duerme la luna blanca,
decidla que la quiero
pero que no puedo acercarme a marla,
porque aún hay combate.

Compañeros, si conocéis el canto de la sirena,
allá en medio del mar,
yo me acercaria a buscarla,
pero aún hay combete.

Y si un triste azar me detiene y doy en tierra,
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado,
si ganamos el combate.

Compañeros, si buscáis las primaveras libres,
con vosotros quiero ir
que para poder vivirlas
me hice soldado.

Y si un triste azar me detiene y doy en tierra
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado.
Cuando ganemos el combate.

domingo, 21 de maio de 2017

Sílvia Pérez Cruz - Todo hombre



Dicen que hay
una manera mejor
de contar esta historia,
hay que brindar.
Tener piedad
con honradez
no es tan fácil,
no lo es.

Todo hombre que pega a otro hombre
es un hijo que pega a otro hijo,
todo hombre que roba a otro hombre,
es el hijo de una madre
que era nieta y bisnieta
y lloraba y flotaba.

Se despistó,
perdió el orgullo, las llaves
y el nombre de hombre normal.
Hay que dormir.

Todo pobre que pide a otro hombre
es un hijo que pide a otro hijo,
todo rico que es un pobre hombre
es el hijo de una madre
que era nieta y bisnieta
y pedía y dormía.

Mal pescador
el que no sabe de vientos,
ni nombra a los peces,
ni quiere mojarse en el mar,
ni cortarse la boca con sol y sal.
Cambiar o remar.
Ir a misa o repicar.

Todo hombre que echa a otro hombre
es un hijo que echa a otro hijo,
todo padre que echa a otro padre
es el hijo de una madre
que era nieta y bisnieta
y nacía y moría.

Conquistador,
provocador,
vendes humo
al peor postor.
La dignidad
pierde valor
por tres duros
y un bofetón.

Levantemos la copa y el sol
del poeta que atiende el dolor
que se inspira y expira perdón
que se esconde a llorar a un rincón
que declina con alma y pudor
en voz baja y desde lejos
él resiste y persiste
y confía en su don.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Mãe; Fausta

   Faz hoje sete anos e um mês que a minha Mãe faleceu. Há quase um ano escrevi um conto, que dei o título de Fausta. Poderia explicar o quanto esta história me diz tanto, tendo mascarado a sua morte nas duas mortes ali escritas. Assim, com excepção de uns pequenos ajustes, está como a publiquei inicialmente.
   A imagem referida na história existe, embora não tão grande. Terá, talvez, trinta e cinco anos e continua na mesinha-de-cabeceira do quarto da minha Mãe.

~~~

Fausta

   Quando a minha avó morreu, aos noventa e seis anos, deixou uma figura da Nossa Senhora de Fátima de um palmo e meio de altura, que brilhava no escuro, e uma bíblia com as páginas enrodilhadas, por ter ficado a secar na eira, sob a canícula do Verão dos meus nove anos. Lembro-me de, numa noite, estar deitada na eira, com os braços cruzados atrás da cabeça, fitar a noite estrelada e pensar que Deus estava lá em cima, mas também ao meu lado, naquele livro que horas antes tinha caído no tanque de lavar a roupa, um velho livro com as páginas escancaradas como se fossem braços abertos, e que se mirava a si próprio na abóbada celeste.

***

   Eu e o meu irmão íamos para casa da avó Fausta logo que terminavam as aulas e por lá ficávamos quatro semanas, enterrados numa aldeia perdida num vale, junto a um rio; dizia a nossa mãe que ali podíamos andar à vontade, que não fazia mal, que a aldeia era quase um éden e nós, quais querubins, podíamos correr praticamente nus; na verdade, passávamos os dias com os pés descalços, ou enfiados no rio, lavando-os da lama e da porcaria dos caminhos de terra batida por onde passava o gado, eu sempre de calções e camisola de alças e o meu irmão quase despido.
   O meu irmão, aos sete anos, era um pequeno exibicionista. Colocando em prática as palavras da mãe, tirava a camisola, os calções e as cuecas e andava em pelota pelas ruas. Resoluto, subia a um muro cheio de musgo, empinava a barriga e punha-se a mostrar a pila às meninas que passavam. As mães afastavam as garotas, refilando de tanta sem-vergonhice, e dirigiam-se à quinta onde a avó era criada; gritavam-lhe, zangadas, que o neto estava outra vez naqueles preparos. Ela, não se desmanchando, respondia-lhes de uma janela, que, pelo menos, olhavam para uma pila. Até que, um dia, a patroa beata ficou com os olhos esbugalhados do espectáculo e a avó Fausta lá foi obrigada a puxar, de vez, o neto de cima do muro. Aborrecida por ter sido chamada à atenção, a avó apertou-o com força e disse que, se não parasse com aquilo, teríamos bife de cabeça chata ao jantar.
   Em vez de andar em pelota pela aldeia, o meu irmão passou a mentir com tantos dentes tinha na boca (menos os dois dentes de leite da frente, uma autêntica baliza quando sorria, depravado, às meninas, do alto do muro). Contou que tinha avistado o pai atrás de um penedo, junto ao rio. Depois, viu-o sentado na eira, até lhe tinha sorrido e tudo; era ele no café do Fundo do Lugar; numa outra altura, estava com um machado e ia para o pinhal onde a avó tinha uns quantos pinheiros.
   Tamanha foi a mentira que a avó respondeu que, se ele tivesse o nariz do Pinóquio, passaria os dias a fazer o pino. O rapazola franziu o nariz, segurando o ranho que lhe escorria até ao lábio superior e a avó assoou-o com tanta força que quase o desencaixou da cara. Isso não o impediu de continuar a fantasiar pelo regresso do pai.
   E foi daquela forma, no Verão dos meus nove anos, que a ausência do pai foi exteriorizada pelo meu irmão mais novo. Ele sentia tanto a sua falta que criava enredos fabulosos nos quais o pai regressava para o apanhar e lá iam eles pelos caminhos fora, quais andarilhos sem eira nem beira, cúmplices em fugas precipitadas, cujo sucesso ele celebrava assobiando com as mãos nos bolsos dos calções, quando os tinha.

***

   Eu e o meu irmão dormíamos num quartinho dos fundos da casinha da avó. Ela tinha um velho cão chamado Joli, com as orelhas sempre em ferida, e um gato zarolho e de pêlo crespo chamado Camões, que dormiam connosco numa desengonçada cama de ferro. A casa grande onde a avó Fausta trabalhava ficava numa quinta, que tinha outros animais, patos, galinhas, coelhos, que ela engordava, decapitava, depenava, esfolava e ajudava a cozinhar. Trazia-nos o que sobrava das refeições, dava-nos o almoço à pressa e voltava para a casa grande, deixando-nos a partilhar a comida, muitas vezes, com o Joli e o Camões.
   Todos os dias, ao fim da tarde, quando chegava da quinta, a avó Fausta sentava-se num banco de madeira e bebia um copo de vinho branco. Sobre a bancada de um velho louceiro, num canto escuro da cozinha onde se guardava a cesta de vime com as cavacas para o fogão a lenha e se penduravam os alhos e o louro, havia um pequeno pipo. Com o cotovelo no tampo e a cabeça apoiada na mão, a avó suspirava enquanto sorvia devagar, em pequenos goles, o vinho, olhando em frente sem fixar nada. Eu espreitava pela frincha da porta semi-aberta, tentando não trilhar os dedos, se ela, de repente, se fechasse. Tinha um olhar cansado, o cabelo curto, todo branco a cair numa cara chupada e enrugada, o queixo saliente, e estava completamente só, viúva e abandonada pelo único filho.
   A avó suspirava, então, bebericando o vinho branco, o meu irmão efabulava e eu devorava livros e vivia as minha próprias aventuras em mundos imaginários durante um mês.

***

   O pai nunca nos apareceu vivo. Muito anos depois, vimo-lo morto, após um ataque cardíaco fulminante; a vida de errante parara, abruptamente, num manhoso quarto de uma pensão da capital. Num casaco pendurado num velho guarda-fatos, estava uma agendazinha com o número de telefone da casa grande, onde a avó Fausta trabalhara mais de meio século. O filho do antigo patrão recebeu o telefonema do dono da pensão e foi chamá-la. A avó Fausta, já com oitenta e muitos anos, exigiu dar chão ao filho; ele ia, por fim, descansar, após tantos anos afastado, ao lado do pai, e lá fizemos trezentos e cinquenta quilómetros com o féretro, até à aldeia. Ela, desdentada, silenciosa e minguada, foi sentada no banco da frente do carro funerário ao lado do motorista-cangalheiro, com a bíblia enrugada no regaço, e eu e o meu irmão, no banco de trás.

***

   Após todos se terem ido embora do enterro da avó Fausta, enquanto eu segurava a velha bíblia de encontro ao peito, o meu irmão, desprovido de qualquer pudor, abriu a braguilha e fez um derradeiro aceno genital. Novamente composto, cavámos um pequeno buraco no monte de terra e enterrámos a figura da Nossa Senhora de Fátima. Como brilhava no escuro, ficámos descansados, porque, assim, a avó teria o caminho iluminado até aos braços do Senhor.
   Depois, saímos do cemitério. Ele abriu a bagageira do automóvel, colocou o pipo em cima do tejadilho e tirou dois copos de um saco.
   Brindámos aos nossos mortos.

domingo, 7 de maio de 2017

Miguel: Alma e Outras Mulheres e Dezasseis Poemas de Ausência, Amor e Despedida; Dia da Mãe

   O João e o Luís, editores da Index ebooks, surpreenderam o Miguel e ofereceram-nos (a mim, ao Miguel, à Patrícia e ao João Roque) os dois novos livros do Miguel, no dia do almoço dos colaboradores da Index, a que se juntou, como já é da praxe, a Mãe do João e a gata Bia (se não me falha a memória, este almoço realiza-se uma vez por ano desde 2014).


   Orgulho-me de ter contribuído, mesmo de uma forma singela (recolhi alguns contos sobre personagens femininas no blogue do Miguel há alguns anos), para o Alma e Outras Mulheres. O Miguel escreve maravilhosamente e com a particularidade de ser um grande poeta.
   E, como hoje é Dia da Mãe, deixo dois poemas de Dezasseis Poemas de Ausência, Amor e Despedida:



quarta-feira, 26 de abril de 2017

Seios

   Fui levantar a mamografia, mas ainda não estava pronta. Desci até à Estrada de Benfica e entrei numa retrosaria que também vendia lingerie. Experimentei vários soutiens. "A senhora tem uns seios estranhos", declarou a dona, depois de lhe devolver três. Apertou alças, encaixou colchetes, ajeitei o peito e, por fim, comprei um 34.
   Recordei-me do Alexandre 'ONeill.



domingo, 16 de abril de 2017

Quem tem medo de Virginia Woolf?

   Primeiro, a peça, no Teatro da Trindade, com  uma fabulosa Alexandra Lencastre e um não menos bom Diogo Infante; depois, rever em casa uma dupla estrondosa: Elizabeth Taylor e Richard Burton.




   Hoje, passei uma Páscoa diferente e fui, com o Adolescente Gay, o Mark e o Francisco,  também comemorar o Dia Mundial da Voz e, na compra de um bilhete, ofereceram outro.