segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

As Asas do Desejo

  

   Que filme magnífico! Nunca o tinha visto no cinema e está em exibição no Monumental. A versão é restaurada (tal como Paris, Texas, que vi na semana passada) e é um dos grandes filmes da minha vida, agora. Não tenho grande jeito para descrever tudo o que senti, mas aqueles desejos de Damiel (extraordinário Bruno Ganz), de sentir, ver, amar, como os humanos, tão bem filmado, na Berlim do pós-guerra, bem, o filme é lindo, triste, caótico, mas, também, muito poético . E consegue, por fim, Damiel consegue amar, como humano.
   Ah, e um muito jovem Nick Cave (& The Bad Seeds) aparece no fim.
   A não perder, sendo que é um dos filmes que a Medeia Filmes está a apresentar em versões restauradas, num ciclo dedicado a Wim Wenders.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Três tipos de solidão: um filme, uma tertúlia, uma entrevista

   O filme é o 'Paris, Texas', em exibição no Nimas, inspirado em Edward Hopper, um grande pintor da solidão, que vi na quinta-feira.
   O jantar-tertúlia foi no Martinho da Arcada, na sexta-feira, e teve como convidado Cruzeiro Seixas. A dado momento, ele descreve uma situação que lhe aconteceu quando estava em Veneza. Entrou numa pequena galeria para se proteger da chuva e estava lá uma exposição de De Chirico. Ele ficou tão impressionado que queria mais informações sobre o autor e perguntou à senhora da galeria onde ele estava. Ela apontou o endereço e disse-lhe: "Vá visitá-lo, que ele está tão sozinho". E depois continuou: "Se De Chirico se sentia assim, imaginem eu..."
   Por fim, a entrevista no Expresso online de António Lobo-Antunes, publicada hoje, em que o escritor responde: «...É mau. É mau entrar numa casa e ouvir o eco da nossa tosse. Todos os homens têm muita dificuldade em estar sozinhos... Não é? Se eu escrever muito estou ocupado.»

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Juan Gabriel Vásquez: O barulho das coisas ao cair

   Da página 90 à página 101 do romance que estou a ler, sublinhei, risquei, reli umas quantas vezes excertos que ainda agora penso neles, de tão marcantes que são. Numa intensidade crescente, o protagonista, Antonio Yammara, descreve, ou melhor, imagina o que teria pensado, como se teria comportando, sentido Elena Fritts, que ia a caminho da Colômbia, minutos antes de o avião se despenhar. Descreve, com uma certa candura, uma descrição bela, o que Elena teria vestido, o caminho que teria percorrido desde casa até ao aeroporto e "... pergunta-se o que está a fazer aqui, se terá sido um erro vir à Colômbia, se na realidade o que disse a sua mãe com aquele seu tom de pitonisa do apocalipse: «Voltar para ele será o último dos teus idealismos.». Elena Fritts está disposta a aceitar o seu carácter idealista, mas isso, pensa, não tem por que condená-la a uma vida inteira de decisões erróneas: também os idealistas acertam de vez em quando."


     Entretanto, na cabine, o comandante e o piloto têm dificuldade em controlar o avião,  mas ela desconhece que algo está a dar para o torto (nas palavras no protagonista, enquanto continua a ouvir a gravação das caixa negras).
   E, de repente, há o barulho.
   "Há um barulho que não consigo, que nunca consegui identificar: um barulho que não é humano ou é mais que humano, o barulho das vidas que se extinguem mas também o barulho dos materiais que se partem. É o barulho das coisas ao cair, um barulho interrompido e por isso mesmo eterno, um barulho que não termina nunca, que continua a ressoar na minha cabeça desde essa tarde e não dá sinais de querer desaparecer, que está para sempre suspenso na minha memória, pendurado nela como uma toalha num cabine."

   
    Depois, surge aquela poderosa frase que se grava na minha cabeça: "Não há nada tão obsceno como espiar os últimos segundos de um homem: deveriam ser secretos, invioláveis, deveriam morrer com quem morre...".
    Finalmente, na página seguinte (97) e no início da página 98, pode ler-se: "A gravação teve, para além disso, a virtude de modificar o passado, pois o pranto de Laverde já não era o mesmo, não podia ser o mesmo que eu tinha presenciado na Casa da Poesia: tinha agora uma densidade da qual antes tinha carecido, devido ao simples facto de que eu tinha ouvido o que ele, sentado naquele sofá de cabedal macio, ouviu naquela tarde. A experiência, aquilo a que chamamos experiência, não é o inventário das nossas dores, mas a compaixão aprendida com as dores alheias."




   O barulho das coisas ao cair, do colombiano Juan Gabriel Vásquez, nascido em 1973 e a viver desde 1999 em Barcelona, venceu o Prémio Alfaguara de Romance em 2011.

   Juan Gabriel Vásquez, O barulho das coisas ao cair, AlfaguaraEditora Objectiva, Carnaxide, 2012 e traduzido por Vasco Gato.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

5 anos; 2017

   Só agora me lembrei que este blogue faz 5 anos hoje, dia de Reis. Então, feliz aniversário, ó blogue! Ainda te vais arrastando, eih? :)
   E para todos os que ainda cá passam, aproveito para desejar um bom ano de 2017, que hoje ainda conta.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Wham!, uma pancada repentina. Autópsia a uma era que acabou

   No passado dia 19 de dezembro, a revista The New Yorker publicou este cartoon:

“Maybe cool it on the beloved celebrities for a bit.”


  Pois o dia 25 de Dezembro foi o 'Último Natal' de George Michael. Deixo um link de um interessante artigo do Sapo24: "Wham!, uma pancada repentina. Autópsia a uma era que acabou".

«Já toda a gente disse que este ano foi um massacre no universo da pop e do rock. No rock erudito – Bowie - no rock avant-garde – Prince – e no das baladas – Cohen. Faltava um símbolo do pop, esse rock dançante que substitui a intenção pela excitação....»

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

MacGyver

   Estou a ver o MacGyver na Fox enquanto passo a ferro; bem, já acabei, de modo que posso escrever este texto. Eu tinha uma queda, aliás, uma forte queda, pelo Richard Dean Anderson e, claro, pelo MacGyver, que escapava de tudo o que era sítio com um canivete e pastilha elástica. Não é má esta nova série, tem mais acção, o actor tem pinta, mas só há um MacGyver, o dos anos '80 e inícios dos '90 do século passado, Richard Dean Anderson.
   MacGyver era um herói discreto, solitário, auxiliado por um(a) ou outro(a) companheiro(a) em cada episódio, mas, essencialmente, trabalhava sozinho para salvar um país/cidade/instalação nuclear de não sei quantos guerrilheiros, ou terroristas, ou maus da fita, ou por aí. Nesta série, pelo contrário, MacGyver tem uns quantos colaboradores.
   E o nome? Na série original, só soubemos que ele tinha nome de raça bovina na vigésima quarta temporada. MacGyver não o dizia e ponto final. Era, apenas, MacGyver.
   Para terminar, deixo uma piada. Vou escrever tal como a recordo, com preguiça em pesquisar no Google, de modo que dêem um desconto, que já passaram não sei quantos anos desde que ma contaram.
 
   Como é que o MacGyver sai do deserto só com uma laranja?
   Separa a vitamina da laranja, na vitamina, separa a vita da mina, faz explodir a mina, que provoca um terramoto, separa a terra da moto, salta para a moto e lá sai o MacGyver do deserto.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Ludovico Einaudi

   Hoje, ao sair do trabalho, a caminho da estação de comboios de Roma-Areeiro, lembrei-me que, às quintas-feiras, o Pascal está a trabalhar na parafarmácia situada numa rua ao lado da Avenida de Roma. Há dois meses, à hora do almoço, recebi uma massagem sentada na cadeira, desde as costas, aos ombros, braços, mãos, nuca, pescoço, enfim, tudo o que estava a precisar, e senti-me tão bem que fiquei fã dele. Assim, desta vez, como tinha mais tempo e pouco passavam das cinco e meia, consegui fazer uma massagem sem marcação.
   Mas o melhor foi ele ter colocado, como música ambiente, o Einaudi, em vez de música zen. Eu era, apenas, a segunda cliente dele que tinha adivinhado o nome do compositor.
   Durante o tempo em que durou a massagem, mais de meia hora, e até ter comido alguma coisa no 'Vitta Roma', antes de ir para casa, tentei lembrar-me do primeiro nome do Einaudi. Leonardo, Federico? Associei ao Leonard Cohen e ao meu gato Fred, que agora são mais as vezes que o chamo de Frederico, mas, lá bem no fundo, sentia que não era o nome correcto. E claro que não era e, mesmo antes de me recordar que podia ter confirmado no telemóvel (tenho lá as músicas), veio-me à memória: Ludovico! Bem, foi uma junção daqueles dois nomes, lá pensei.
   E aqui fica, então, o Ludovico Einaudi (tive pena de não ter ido aos concertos, é verdade).