quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A roseira

Dividia as duas casas, a da Adozinda e a da Maria. Plantada há décadas, antes da partida para Angola, pela Maria, marcava o limite da casa da família, antes una, depois dividida pela roseira e pelo muro. Separadas as casas, uniu as crianças nas brincadeiras.

A roseira dos netos da Maria, era, também, dos netos da Adozinda. A roseira tinha ramos desengonçados, as pétalas caiam tropegamente no pátio, no caminho para a cozinha, no Verão. Os espinhos grandes partiam-se dos ramos que nasciam no tronco rugoso, cheio de nódulos, por onde subiam as formigas e as abelhas zumbiam e quando uma delas picava, a avó Maria colocava uma faca fria no dedo, depois de tirado o ferrão com uma pinça. E resultava.


As abelhas existiam, como existia a roseira, as rosas cor-de-rosa e os espinhos, os picos que os netos colavam na palma da mão direita com um bocado de cuspo e pediam um ‘passou bem’ às pessoas que passavam em frente às casas da Adozinda e da Maria.


Ou colados no chafariz do Povo. O Povo era um largo que tinha um chafariz com uma torneira que se carregava com bastante força até permitir que a água jorrasse. Diariamente, era utilizado pelas velhotas míopes, com dedos calejados, grossos, mãos enrugadas e cansadas e velhas para crianças de sete, oito anos, que não se importavam em magoá-las, era um divertimento cruel e elas sabiam quem eram os fedelhos, os netos da Adozinda e da Maria, unidos pela roseira.

9 comentários:

  1. tão bem escrito, margarida. que prazer ler este texto, dá vontade de ter lá estado, de ter visto e participado nas partidas às velhas.

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  2. As memórias da infância provocam-me uma tremenda nostalgia...
    Bjs.

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  3. obrigada, miguel. ainda bem que gostaste. é importante a tua opinião.
    pobres velhas... estávamos sempre à espreita, num canto, para ver as velhas a aproximarem-se do chafariz.

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  4. a mim tb, Arrakis. qt mais avanço na idade, mais penso o quanto me diverti em miúda, na aldeia.
    bjs.

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  5. Adoro estes retratos das recordações passadas, plenos de ruralidade pura e quando bem escritos, como este, tanto melhor.

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  6. obrigada :)
    é uma nova rubrica, João. pensei nela ontem à noite, enquanto lavava os dentes. impressionante o que se pensa no wc :D.
    acabei a 'maligna' e pelas 2,30 da matina estava a escrever isto no word. estipulei o limite das 250 palavras. depois, agendei para a manhãzinha, no blogue.
    a aldeia é a minha grande referência. passei lá todas as férias dos 2 aos 12 anos, tirando semanas esporádicas na praia da vieira, qd os meus tios viviam lá.
    bjs.

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  7. Gostei muito,

    A minha avó também dividia paredes-meias com a minha tia avó e o meu tio avô :)

    Beijinhos e obrigado pelo momento kodac

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  8. no meu caso, fechou-se uma porta e criaram-se duas casas independentes. os meus avós fizeram um wc e uma cozinha, q tinham ficado do outro lado, e um terceiro andar com os quartos.
    a minha tia-avó tb ficou com o forno a lenha, mas era utilizado pelas duas famílias e por gente de fora. era quase comunitário :)
    bjs.

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  9. Lia e pensava nas dezenas de roseiras que sempre tivemos no jardim :)
    Adorei, o texto é lindo.
    Bjs e boa empreitada :)

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