domingo, 2 de dezembro de 2012

Antigamente aqui havia um cinema

(o conto do miguel)

Ela entrou numa terça-feira. Chovia que deus a dava. Foi à procura de abrigo e naquele lugar, cheirando a suor e madeira, a tabaco e caramelos, com estofos surrados e portas empenadas e ecrã manchado de humidade nos cantos, sentiu-se em casa. Passou por mim, não, deslizou suavemente pela minha perna e sentou-se ao meu lado. Pouco lhe importou que o sobretudo e o cachecol estivessem molhados, atirados de qualquer maneira para cima da cadeira.


Muito direita, olhou o ecrã. De perfil na semiobscuridade, o olho reluzia, de pupila negra, absorvendo ‘Que Teria Acontecido a Baby Jane?’.


Naquele instante, vinte e dois anos depois e ainda tão nítido, ecoa a gargalhada doentia da Jane nos velhos altifalantes; ela vira-se ligeiramente para mim, com os olhos muito brilhantes, mexendo um bocadinho as delicadas orelhas, captando as vozes do filme, o barulho da película a rolar no velho projector, inclinando um quase-nada a cabeça.


Era magnífica.


Antigamente, aqui havia um cinema. Tinha dezanove anos e uma gata chamada Betty Davis.


A sala permanecia quase vazia, eramos nós, uns namorados do liceu, que trocavam beijos e carícias, depois foram-se os namorados, fiquei eu e a Bette Davis e, por fim, desapareceram as cadeiras surradas, a tela manchada, as portas empenadas, quando o centro comercial surgiu, com as suas modernas salas de cinema.


Agora, aqui existe um bar. Olho a cadeira ao meu lado, enquanto bebo um copo, e penso na Bette Davis, que desapareceu quando o cinema encerrou.


14 comentários:

  1. lindíssimo, Margarida. adorei. tem um sortilégio muito forte, e é muito original e surpreendente. estou feliz por ter sugerido um título que deu origem a uma história tão extraordinária e, como sempre acontece contigo, tão bem escrita.

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  2. :)
    estava com receio que não gostasses.

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  3. "Bette Davies", a gata do cinema que já não há... muito bonito!

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  4. bette davis, uma das minhas actrizes preferidas, baby jane, um grande filme! outros tempos.
    :)
    obrigada.

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  5. Uma mistura de melancolia, saudade, tributo! Lindo!

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  6. Muito bonito.
    "Agora, aqui existe um bar", mas poderia ter dado lugar a uma igreja :p
    Bjs

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  7. entre um bar e uma igreja, prefiro o bar :)
    bjs.

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  8. Muito bonito, mágico como um cinema velho e abandonado.
    Bjs.

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  9. Pode ser que me surpreendas com melhores contos, mas este é difícil de bater.
    Parabéns a ti que o escreveste e ao Miguel que te sugeriu a ideia. Se eu fosse a ele, o mínimo que poderia fazer como agradecimento, era arranjar uma gata e chamar-lhe Bette Davis...

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  10. eu tb concordo contigo, João. de todos, gosto mais deste (o da rosa tb me é querido, como irão ler).
    bjs.
    ps: no mínimo, o miguel acataria esse teu conselho :D

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  11. Escreves com pormenor. Isso é artístico e difícil de se fazer! És minuciosa e, por isso mesmo, saiu algo muito literário.

    O nome da gata é apenas a cereja que premeia o bolo.


    bjo. :*

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