sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Depois da primeira queda, já


Nada foi o mesmo. Dessa vez, nem ligou. Era uma entre tantas. Ao longo de treze anos, caiu de morros, caiu a um poço, felizmente pouco profundo, obrigando o filho mais novo a saltar lá para dentro e amarrar-lhe uma corda ao lombo, para o tirar da lama, caiu da varanda e andou coxo três semanas, caiu ao ribeiro, aqui, confessou ele, não era bem isso, atirava-se ao primeiro peixe que via. ‘Cão estranho este!’, era o que o velho dono dizia, soltando uma gargalhada.

Um dia, sentiu algo diferente. Naquela altura, quando a velha dona o chamou ‘Fanã! Fanã, anda cá! Fanãããããã!’, - muito ele se deliciava com aquele ditongo anasalado que lhe chegava às orelhas espetadas, na vogal que voava ao sabor dos cheiros quentes da cozinha até à porta da entrada, onde se estendia. Hábito arreigado ao longo dos anos, com a cabeça deitada entre patas dianteiras, recebendo o fresco do cair da noite, e sabia que um pedaço de pão-de-ló acabado de fazer estava à sua espera – ergueu-se nas patas, depois caiu, estranhou, voltou a erguer-se, primeiro nas patas traseiras, e sentiu um formigueiro a percorrer-lhe a espinha. Ficou quieto, em pé, tremendo, à espera que passasse. Não lhe passavam sempre, as mazelas que recebeu ao longo dos anos, e foram muitas - treze anos marcados no corpo de um rafeiro que era o mais enfezado de uma ninhada de seis?

Não passou. Chegou o que temia, estava a envelhecer.



12 comentários:

  1. Oh, lindo demais; emocionante demais; inesperado demais!
    Adorei!
    Tem tudo a ver com o "meu" mundo.
    Muito obrigada, de coração, pelo conto tão sensível.

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  2. :)
    (se querias uma história baseada na tua experiência como professora, não ousei.)
    eu tb gosto muito deste conto.
    ah, tenho um miguel torga dentro de mim ;)
    bjs.

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  3. Muito bonito e bem escrito. Adorei :)
    Bjs.

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  4. Havia muitas expectativas sobre este conto, que sempre disseste ser aquele que mais gostavas, e essas expectativas não foram defraudadas, pois é muito boa a história,
    Mas, para mim, a história do Miguel continua a ser a melhor.

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  5. João, a do miguel é muito especial e tive a sorte de ser muito bem aceite, e por ter sido a primeira. mas este conto é-me muito especial por ter a perspectiva do animal :)
    bjs.

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  6. Por acaso, não esperava nada que se relacionasse com a minha profissão. As minhas cinco palavrinhas foram escolhidas para "provocar". O que esperava? Algo bem diferente do que podia ser óbvio. E foi muito bem conseguido!
    Mas tenho que discordar do João. O melhor conto foi e será este. (Claro, ou não fosse o "meu". eheheeheh)

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  7. acho fantástico o tom que encontraste, porque é o necessário para o conto resultar, quase uma coisa de alquimista. o desafio era grande, tinha de ser perfeito para funcionar. e funciona mesmo.

    a Rosa tem motivos para estar orgulhosa eheh

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  8. ainda nem sei como é que consegui escrever este conto, a sério. é tão bonito...

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  9. Não admira que seja o teu favorito: envolve animais. :)
    Falaste do envelhecimento de forma especial. Aliás, do percurso que nos leva até à morte.

    bjo.

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  10. eu vivi isso, Mark, com o meu cão velhinho, já mal se mexia, tinha cataratas, sabia que tinha chegado o dia qd se arrastou para o pé da minha/nossa - que tb era dele - mãe e lá ficou.
    bjs.

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