segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Oh! Não me peças isso

(o conto do Pedro)

Foi a resposta que recebeu, há quarenta e cinco minutos atrás, quando deixou o seu apartamento.


Naquele momento, o seu coração batia descompassado. Se pusesse um balão de banda-desenhada junto ao peito, a onomatopeia seria algo como ‘tump-tump-tump-tump-tump’.


Reparou, então, olhando para os pés, que não era o coração, mas as escadas rolantes do metro que estremeciam, fazendo o músculo absorver a vibração. Teve plena consciência, porém, que o que sentia não era apenas provocado pelo balanço das escadas rolantes.


Na impossibilidade de fugir, amava-o, sim, amava-o incondicionalmente – na verdade, a conclusão a que chegou, um segundo após o confronto, mas que não verbalizou, era que não queria fazê-lo - decidiu não baixar os braços. Não ia desistir, porque o que os unia era forte, forte demais para ficar escondido e negado. Todos os dias, iria ter com ele, perguntaria a mesma coisa, repetiria, repetiria até à exaustão. Sabia que iria escutar dezenas de vezes, como da primeira: ‘nunca podemos ficar juntos.’ Claro que sabia as consequências, tinha passado por elas há muitos anos. Quantos? Vinte e cinco. Desde os dezassete, é só fazer as contas. E, convenhamos, era muito mais difícil há um quarto de século.


Era a razão de não se conformar e de nunca desistir. Sim, iria conseguir convencê-lo, porque ele não estaria sozinho, os gigantes são apenas moinhos de vento. O resto, seria suportado a dois, consolado, chorado, rindo a dois.


Um dia, uns anos depois, escutou outro pedido, e aceitou.


15 comentários:

  1. Excelente! Há que não desistir nunca dos nossos sonhos.
    Bjs.

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  2. eu acho que este conto não resultou assim tão bem...
    mas ainda bem que gostaste :)
    bjs.

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  3. Muito obrigado, Margarida.
    Está lindíssimo o conto.
    Não queria dar-te tanto trabalho, com a escrita e re-escrita... mas o resultado está muito bom.
    É sobre os sonhos - tão bom - e sobre a possibilidade, sempre existente, de se realizarem.
    É sobre o 'amor' que move montanhas!
    É sobre os tempos - os que passam, os que passaram - e sobre as mudanças que novos tempos trazem.

    Lembro-me de um comentário teu em 10 de Abril: 'gostava de pôr nas pontas dos dedos o que sinto, tão bem como tu escreves...'.

    É ocasião para te dizer, sem estar a fazer nenhum favor - tu escreves muito bem... e transformas as palavras em símbolos de amizade.

    Gostei muito. Obrigado!

    Bjs

    PS: Volto para a minha 'viagem'

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  4. eu escrevi isso, nesse dia? bem, escrevi :)
    ainda bem que gostaste, Pedro.
    não fiques muito tempo longe, mesmo sabendo que estas viagens introspectivas, por vezes, são necessárias.
    bjs.

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  5. Parabéns pelo conto, que penso adequar-se bastante bem ao Pedro.
    E insisto na tua pergunta a ele: Quando voltas?

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  6. Que texto "provocador"!
    Gostei imenso!
    (Isto está a tornar-se um vício. Estou sempre esperando o próximo conto!)

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  7. Deliciado :)

    Não tenho mais palavras

    Beijinhos Grandes

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  8. Rosa, o próximo é o do João Roque (já está agendado pq não sabia a que horas regressava da cinemateca e queria colocá-lo lá asap).
    os contos são publicados por ordem do pedido.
    bjs.

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  9. ainda lanço o meu work às urtigas e vivo disto :D
    bjs, Francisco.

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  10. O próximo é do João Roque??????
    E logo amanhã, que vou trabalhar até ao fim do dia...

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  11. Nunca desistir de um verdadeiro amor.

    Nunca ponderar entre a felicidade e (...).

    É sempre, mais tarde ou mais cedo, uma batalha perdida. Por isso, que venham os duelos a quem ama.


    bjo.

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  12. como disse a Rosa aí em cima, isto pode tornar-se viciante. e ainda bem. escreves deliciosamente, e é delicioso ler-te

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  13. obrigada.
    mas tenho que melhorar este registo.

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  14. Mais um conto lindíssimo.
    Gostei muito. De facto tocou-me, porque já passei por algo semelhante. Há decisões muito difíceis de tomar e por vezes demoram alguns anos.
    Mas uma das coisas mais importantes que aprendi foi que as mudanças importantes da nossa vida devem acontecer em função de nós mesmos e nunca pelos outros, embora possam e devam ser vividas a dois.
    Bjs

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  15. agradeço as vossas palavras. são um grande incentivo para continuar :)
    bjs.

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