terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Quero-te demais para estares longe


Caminho pelas mesmas ruas que calcorreámos há semanas. Olho a montra da loja de velharias e o móvel de carvalho, que gostaste tanto. Precisava ser restaurado, lembro-me de te ter dito, e daria uma bonita estante. Concordaste, entusiasmado, seria uma bela peça para a nossa casa, a nossa futura casa juntos. Continuámos a caminhar, lado a lado, sentámo-nos na esplanada do hotel, à beira-mar, a mesma para onde me dirijo de seguida, sentar-me-ei na mesma cadeira e fingirei que estás comigo a tomar um copo. Não preciso fingir que estás comigo, porque estás, mas neste momento, é tanta a saudade e estás tão longe. A solidão impera, carregada, envolve-me e sinto-me triste.

Já vejo a entrada do hotel, acelero o passo, eis-me passando a recepção, as portas de vidro, as mesas do café, saio para as traseiras, sento-me no lugar certo, na nossa mesa e peço um copo de vinho branco, um Douro, cremoso, como tu, fica na língua, como tu ficas na minha, persistente, entras dentro de mim, enches-me enquanto o meu olhar cai no mar encrespado, enquanto as vagas se estilhaçam em espuma branca suja nas falésias de ardósia rendilhada.

Está frio, penso em ti, quero-te aqui, o teu corpo a aquecer-me por fora enquanto o vinho me aquece por dentro. Quero-te demais, tanto neste instante, em todos os instantes, faltas tu, falta a peça do puzzle para completar o quadro da minha vida, estás longe e o teu espaço encontra-se vazio agora.

12 comentários:

  1. Amargo e doce como a distância indesejada. Gostei muito :)
    Bjs.

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  2. :) obrigada.
    (acabei o conto do Mark, ao mesmo tempo que colocava este comentário).
    bjs.

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  3. acho que o João vai adorar.
    são um primor estes teus contos. pelos pormenores, pelo exercício, pela maneira tão evidente como os escreves para alguém, e no entanto eles fazem sentido para quem quer que os leia.

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  4. tb o espero.
    e como são apenas 250 palavras, escrevo o essencial. são uns mini-contos, é o que são :)

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  5. ainda bem, Francisco.
    o João deve estar no meio dos livros, na Ler...
    bjs.

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  6. O que queres que te diga, Margarida?
    Puseste-me a chorar...

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  7. É, realmente, a história do João, como disse o sad - e bem! Retrataste-a na perfeição.

    bjo.


    p.s.: Obrigado pelo esforço. :')

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  8. Mark, o teu conto não sei se se adapta ao teu título, mas considero o final perfeito para este ciclo de pequenas histórias.
    bjs.

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