domingo, 20 de janeiro de 2013

O café da minha aldeia

Descíamos o outeiro, passávamos a ponte, descíamos mais uma ladeira e virávamos à direita. Abríamos o desengonçado portão de ferro, de um verde azeitona descolorido pela passagem do tempo, mas vibrante da energia de milhares de mãos que, ao longo dos anos, o agarraram.

Era a entrada num novo mundo, o do café. A avó não saía do outeiro nos dias de semana, pois a caminhada era longa, e aguardava pelo regresso da filha à aldeia, aos fins-de-semana. 

Nessas alturas, íamos todos ao café, a avó, a mãe, o tio, eu, o meu irmão, os dois netos da tia-avó Adozinda e, muitas vezes, um casal de irmãos da quinta em frente à nossa casa, os nossos companheiros de aventuras na infância.

Aí, os adultos colocavam a conversa em dia, entre a fumarada dos mata-ratos dos velhotes que, compenetrados, jogavam à sueca, e nós saíamos para a esplanada, após choramingarmos por caramelos e algumas moedas de cinquenta centavos. Felizes com a boca cheia de doces, que se prendiam nos dentes banhados de saliva, circundávamos, excitados, a velha mesa de matraquilhos.

Aquelas chapas castanhas enormes valiam uma fortuna. Com cada uma, tínhamos direito a cinco bolas brancas de chumbo, sujas por anos de manuseamento. Com as mãos crispadas e o sobrolho franzido, defendíamos a baliza ou atacávamos a meio campo e, de um golpe ágil do punho e manobras dignas de Chalanas de nove anos, cinzelávamos para a eternidade momentos brilhantes de risos e gritos de vitória. 

Conto enviado para o 'Crónicas on the rockse publicado hoje. Obrigada, Carlos.

32 comentários:

  1. Mais um belo conto, como nos tens habituado :)
    Estava a ler a pensar que seria interessante, por exemplo, começar a semana sempre com um conto da Margarida :)
    Beijos

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    1. fica a ideia, terei de a ponderar :)
      bjs.

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  2. Muito bonita esta crónica. Também tive uns pedaços de infância mais ou menos assim quando passava férias com os meus avós na aldeia. Íamos ao café à noite ver televisão porque em casa não havia. Era todo um mundo como tu tão bem descreves.
    Bjs e boa semana.

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    1. :) sim, antes de termos a grande grundig, íamos a casa da vizinha que tinha e víamos a novela. não descíamos ao café. ficava muito longe.
      bjs.

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  3. Concordo com o SE... início de semana e temos um conto para ler.
    Está combinado?
    Bjs, Margarida

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    1. não me posso comprometer, Pedro. posso tentar, mas nada certo. pode ser de quinze em quinze dias, por exemplo. :)
      bjs.

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  4. Que lindo, Margarida. E adequa-se completamente ao espírito do desafio do Carlos.

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  5. Cheguei aqui, seguindo o link do Crónicas on the Rocks" Gostei da história e vou aproveitar para descobrir um pouco mais do que está aqui :)
    Gábi

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  6. Obrigado, Margarida, por ter partilhado connosco esse trecho da sua infância. Estou certo que todos os leitores terão igualmente recordado um episódio da sua infância, a partir da sua estória.
    Já agora, permita-me que agradeça também ao João, tê-la convidado a tomar café connosco.

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    1. e eu agradeço a oportunidade de me 'forçar' a escrever esta história.
      sim, o João merece todos os agradecimentos. :) são mais que justos.

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  7. Mais um conto delicioso sobre a tua infância. :) Lamento apenas não ter memórias destas. As minhas são citadinas, como já te disse, exceptuando as férias na casa da avó, no Alentejo...

    beijinho.

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    1. obrigada :)
      tens outras memórias, tão importantes como as minhas.
      bjs.

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  8. Também vim aqui através do Cronicas on the rock, e apraz-me dizer que gosto da sua escrita :)

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  9. Vim através do amigo comum Carlos dar-lhe os parabéns por este excelente conto.

    beijinho

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  10. Chego via Crónicas on the Rocks... e agora vou à procura de outros contos destes :)

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    1. todos os contos estão na parte direita do blogue :)

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  11. Adorei o conto e como me identifiquei com a aldeia dos meus avós. A felicidade que era beber um pirolito. Nada mais que água gasificada que tinha um berlinde chamado pirolito.

    Beijinho muito grande e concordo com todos os de cima, que deverias escrever um conto todas as semanas :)

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    1. :) obrigada. não sei se dará. tenho que estar inspirada. logo se vê.
      bjs.

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  12. Gostei muito! :) Escreves com uma clareza que gera identificadores comuns a todos nós. Muitos Parabéns :)

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    1. obrigada. assim, parece muito fácil. :)
      agora experimenta transformar estes contos num livro, não serão 250 palavras... por isso é que não posso prometer um conto todas as semanas. mas vou tentar.

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    2. Sim, o desafio é grande, mas o resultado será com certeza muito gratificante, e pelo que já li da tua escrita: genial! Keep going!

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    3. obrigada :)
      sendo assim, vou tentar. segunda sairá um novo conto.
      (de qualquer forma, serão inputs para o livro...)

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  13. Quem se deliciou com Conan e Tom Sawyer e tão bem relata uma jogatana de "bonecos", mais recentemente matraquilhos, tem certamente a idade dos meus filhos e a sabedoria dos meus pais.
    Um beijinho à Margarida

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    1. :) fiquei muito sensibilizada pelo seu elogio. as palavras para agradecer têm dificuldade em surgir, mas sinto-as bem fundo. muito obrigada.
      bjs.

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  14. a tua escrita tem uma grande capacidade evocativa, além de ser sempre muito agradável de ler. e essa capacidade de evocar é tão certeira, que me traz logo à lembrança memórias minhas.
    já no outro dia, num texto que escreveste sobre lagartas e televisão, me identifiquei muito com o que escreveste, quer dizer, vivi situações muito parecidas, embora provavelmente alguns anos antes.
    em finais de anos 70 passei um ano lectivo a partilhar o tempo entre uma cidadezinha transmontana (aulas) e uma aldeia na Beira Alta (fins de semana e férias), onde as coisas eram muito como as descreves (até a mesa de matraquilhos do café da eira, ou dajeiras, como lá se dizia!).
    mas, ao contrário do que acontece contigo, essas não são lembranças de um tempo bom. já não doem, passou demasiado tempo e as marcas foram apagadas. mas uma cicatrizita ou outra permanece. por exemplo, no facto de nunca ter conseguido desenvolver um verdadeiro afecto pelas pessoas da minha família com quem passei esses tempos.
    já no outro dia, quando foi o texto da lagarta e da formiga, me apeteceu comentar, mas depois passou a oportunidade. foi hoje :)

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    1. dajeiras! na minha terra também falam assim, mas não na minha família. carrego certas palavras, digo 'maiór', digo de outra forma, 'oito menos um quarto', aloquete, cruzetas, mais à maneira do norte, mas de resto penso que não tenho sotaque.
      foram tempos bons, mas passei outros menos bons, maus até, as dificuldades eram imensas, e os afectos foram, por isso mesmo, apenas dedicados à avó (embora na altura não o demonstrasse muito), e eu sempre tratei a minha avó por 'tu', mas ela não era uma avozinha dos livros das histórias, ralhava e batia quando tinha que ser, que os netos eram terríveis :)
      eu não obedecia muito ao tio (mais velho do que eu 18 anos, filho mais novo da avó e muito mimado), não lhe ligava nenhuma, no fundo a avó foi a minha grande referência.
      ainda não mencionei uma prima Alice, prima direita da minha avó que, se ainda for viva, deve rondar os 90 anos. muito eu gostava dela. quando a maior parte das casas tinha uma campainha que soava o 'trim-trim' normal, a dela entoava o chilrear de passarinhos. e assim, quando a visitávamos - também vivia na aldeia, mas junto à igreja - era uma festa e ela ria quando tocávamos sem fim à campainha. :D

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