domingo, 17 de fevereiro de 2013

A livraria

Da janela da cozinha, observei um bando de gaivotas que voavam em círculos sob o céu cinzento. A chuva ameaçava cair a qualquer instante. Como se ouvissem os meus pensamentos, naquele momento, agulhas de água perfuraram as densas almofadas de nuvens e espetaram-se no chão. Depressa as bermas ficaram alagadas e as valetas entupidas. Folhas, paus raquíticos, garrafas de água, papéis de diversas origens flutuavam, revoltosos. Uma roda de um caixote do lixo, um candeeiro, uma pedra interrompia o seu curso, apenas por uns breves segundos. 

Mal se notando no vidro embaciado, via-a a aproximar-se, miudinha, de gabardina até aos tornozelos e galochas amarelas que brilhavam por entre os pingos de água como um raio de sol tímido no Inverno. A todo o custo, protegia-se debaixo de um grande chapéu-de-chuva encarnado que, apesar de robusto, ameaçava vergar-se perante a força da bátega.


Corri para a porta e recebi-a com um sorriso. 


- Bom dia, dona Martinha. – com delicadeza, segurei-lhe no chapéu.


- Bom dia, menina. – ela respondeu, entregando-me o chapéu-de-chuva.


Quando regressei das traseiras, ela já estava no seu local habitual, sentada num sofá a um canto da sala. Nas mãos engelhadas, por onde despontavam pequenas manchas da idade que pareciam navegar nas veias salientes, repousava o seu amado livro. Entre poemas de amor e saudade, reencontrou Natália e juntas viraram as páginas que durante quarenta e dois anos tinham lido em conjunto.

Deixei a dona Martinha com as suas recordações e voltei a prestar atenção à chuva.

16 comentários:

  1. ... consegui ver cada detalhe da passagem da água pela rua. Assim ia lendo e a água ia correndo ao largo da estrada.

    E que apropriado, num domingo chuvoso. :)


    beijinho.

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    1. é um conto apropriado, a livraria é o abrigo perfeito (este conto é longo, como o meu editor pediu, estou a aventurar-me em mais de 250 palavras, :D )
      bjs.

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  2. Mais uma vez muito bom :)
    E como disse o Mark, muito apropriado para este dia de chuva.
    Eu saboreei esta tarde chvosa com papas de farinha de milho (ou de carolo, como se diz nas Beiras) :p
    Bjs

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    1. obrigada.
      eu ainda não lanchei. acabei os flocos de aveia no fim-de-semana passado. adoro flocos de aveia.
      bjs.

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  3. bravo Margarida. muito ambiente, e muitas promessas de linhas narrativas. há mais?

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    1. há, pelo menos 3 micro-contos. já teminei este (4 páginas, não é muito grande). depois publico.
      :)

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  4. A tua escrita é imensamente sugestiva. Adorei este pequeno conto.
    Bjs.

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    1. :) obrigada.
      esqueci-me de mencionar, mas é dedicado a vós, pacientes leitores deste blogue e amantes de livros :)
      bjs.

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  5. e estou zangada com vocês porque não me criticaram por eu ter cometido um erro crasso! 'vi-a a...' 'vi-a a'??? 'Via-a a...', pretérito imperfeito do verbo ver, mas são tantos 'a's juntos.
    espero mais críticas no futuro.
    grata.
    :D

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    1. não me estou a portar muito bem. não acho que tenha a densidade dos micro-contos que me habituei a escrever. um defeito que só com muitos anos de escrita tentarei colmatar...
      pois, o meu editor :D mas eu avisei-o. os contos não seriam tão bons.

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  7. O teu blogue, é daqueles espaços que não dá para vir a correr, assim como quem bebe um café a queimar a garganta, só porque não tem tempo. É preciso estar completamente focado, anestesiado e atento para que se possam saborear as tuas palavras e a maneira que as coses em frase soberbas de descrições como " agulhas de água perfuraram as densas almofadas de nuvens" e "nas mãos engelhadas, por onde despontavam pequenas manchas da idade que pareciam navegar nas veias saliente". Escreves muito bem e consegues gerar pontos de toque, capazes de tornar esta história num capítulo de quem a lê. Adoro vir aqui e encontrar uma peça destas. Uma obra de arte. Muitos parabéns :)

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    1. a propósito deste teu comentário, muita da minha inspiração vem de haruki murakami.
      'Está escuro na sala. Apenas a área onde o homem se encontra recebe luz de cima, proveniente de uma lâmpada fosforescente no tecto, mesmo por cima dele. Poderia ser um quadro de Edward Hopper chamado solidão'. ou aqui '...as pessoas que passaram a noite espalhadas pela cidade avançam em direcção às estações a fim de apanharem os primeiros comboios, comboios esses que hão-de levá-los até aos subúrbios, como um cardume de peixes a subir a corrente. (...) O novo dia está quase a chegar, mas o antigo arrasta ainda os seus pesados contornos. Tal como a água do mar e a água do rio medem forças na foz do rio, o velho tempo e o novo tempo lutam e misturam-se' - after dark, os passageiros da noite.
      (já estranhavam não o mencionar, não? :))

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  8. Mais uma pérola a juntar às muitas que vou lendo por aqui. Obrigado

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