domingo, 3 de fevereiro de 2013

A mãe

Balbina nascera no Lobito, tinha olhos castanhos vivazes, pele brilhante e na cabeça um lenço de matizes quentes como as da sua terra. Roberto, de penetrantes olhos verdes e cabelo louro, era alto, magro e usava óculos redondinhos num nariz adunco.
 

Roberto perdia-se de amores pela sua Bina tom de café com leite, de peito largo e convidativo, e Bina continuava apaixonada pelo seu homem da cor do milheiral em pleno Setembro, de barba hirsuta pontilhada por manchas grisalhas, que ela tentava domesticar sem sucesso com dedos doces e pacientes.
 

Fernando, quinze anos feitos na semana anterior, um dia apresentou aos pais uma colega da escola. Nando era um rapaz acanhado com pele da cor da da mãe e olhos verdes como os do pai. Gagueava as palavras em fragmentos tímidos, como um papagaio de papel que hesita em pulos desengonçados antes de conseguir levantar vôo encavalitado numa rabanada de vento.
 

Roberto, calado, observou com curiosidade a rapariga que Nando tanto gostava. Bina, a seu lado com um sorriso, mediu-a intensamente da cabeça aos pés. A jovem sentiu-se a afoguear naqueles olhos incandescentes como o sol e no seu colo quente como África.
 

Acompanhados de uma sonora gargalhada de júbilo, os braços roliços de Bina receberam-na em casa, como a porta da entrada a tinha acolhido minutos antes. Maria encostou o rosto ao seu peito, respirou o cheiro do pirão, da mandioca e do jindungo e, pela primeira vez na vida, soube o que era ter uma mãe.

18 comentários:

  1. Linda história. Gostava de conhecer a Balbina! :P

    Bjs

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    1. também eu... mas ela existe, de certeza.
      bjs.

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  2. Confirma-se, temos contos aos domingos :-)
    É uma histórias "quente". Gostei muito, mas já é hábito.
    Bjs

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    1. o amor é quente. :)
      não sei se serão todos os domingos, uma vez por outra sim.
      bjs.

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    1. obrigada.
      nesta história, dei-me conta que 'cor' é uma das minhas palavras preferidas.

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  4. Lindo conto e com um odor a África que tanto me agrada. :)

    Se tivesses trocado o Lobito por Nampula ou pela Beira, estaria eufórico! :D


    beijinho.

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    1. Angola diz-me mais. os meus avós paternos viveram aí e os maternos em Benguela.
      mas tu podes trocar à vontade :)
      bjs.

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  5. gostei muito. gostei sobretudo do tom radiografia a cores: parar o momento, olhar para dentro, e ver as cores intensas que desenham as personagens, quase como aquelas fotografias que cromatizam a temperatura.
    mas tenho uma dúvida que te vou pôr por mail.

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    1. obrigada pela atenção. vou já alterar.
      olho clínico, o teu :)

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  6. Gostei, fez-me lembrar a minha África :)
    Bjs e boa semana.

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    1. tenho pena de não ter nada de lá, a não ser umas poucas fotos a preto e branco.
      boa semana.
      bjs.

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  7. Woowww, lindo. Escreves maravilhosamente bem :)

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  8. Não me surpreendeu nada; antes pelo contrário...
    Eu já te disse e agora confirmo: és uma escritora nata!

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    1. nata não sou, que dou erros de palmatória...

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