domingo, 24 de fevereiro de 2013

A morta

A tia-avó estava na casa-de-jantar. Como eu era muito pequena, não consegui ver o seu rosto, mas cheirei as flores que adocicavam o cheiro a bafio daquela sala gelada onde repousava.

Aos quatro anos, nada sabia sobre a morte a não ser que fazia as mulheres se vestirem de preto para sempre e usarem um medalhão ao pescoço com a fotografia do marido.


Fiquei quieta a olhar as velhas, que sussurravam palavras inaudíveis aos meus ouvidos de criança, as bocas tapadas pelo xaile enrolado no rosto e nos ombros encurvados. Pareciam grandes pássaros negros, onde só se via a ponta do nariz e os olhos enrugados e pequeninos.
A avó ficou com elas e regressei a nossa casa.


Naquele dia, havia muita gente por lá, os primos do Brasil, de Lisboa, do Porto, adultos, família que só conhecia dos retratos pendurados na parede do corredor.


Como a avó, que enroscava a linha de crochet no dedo e girava a agulha, criando uma delicada renda, cada um dos primos usava uma linha da sua cor, a conversa tecia-se com os seus sotaques. (*)


Escondi-me debaixo da mesa da velhinha máquina de costura, ajoelhada sobre o grande pedal castanho de metal.


Dez metros separavam-me da morta e eu, baloiçando-me ao som das vozes cálidas dos primos, fechei os olhos com muita força. Nesse momento, desejei que a tia-avó pudesse estar ali viva e sentir o calor da família, e não morta na sala gelada ao lado.


(*) O parágrafo foi corrigido, aceitei o comentário do miguel.

8 comentários:

  1. A morte (tal como o sexo) é assunto tabu, de que não se fala às crianças! Bem observado e bem escrito, Margarida.

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    1. obrigada, João.
      na verdade era um pouco mais velha que esta miúda, devia ter uns 5 ou 6 anos quando a minha mãe me levou a velar a tia-avó adozinda. a verdade é que não ficávamos afastados.

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  2. Retrataste bem o que se passará pela cabeça de uma criança quando confrontada com a morte. É um exercício interessante, só possível se nós colocarmos de lado uns quantos anos...

    beijinho.

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    1. obrigada.
      essa distância é essencial.
      bjs.

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  3. Passei por isto com a morte do meu avô, por volta dos 6 anos. Marcou-me bastante, assim como aos meus primos. O velório do avô na sala da casa, levou a que alguns de nós durante uns tempos muito largos nos recusássemos a lá entrar. Curiosamente, não acho que tenha sido um assunto tabu.

    Como sempre, muito bem escrito :)
    Bjs

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    1. obrigada.
      também não considero tabu, vivendo na aldeia, os velhotes morriam à medida que eu crescia, foram-se os tios-avôs quando era pequena, os primos afastados velhinhos e depois a avó, sim, essa marcou-me muito. tinha 12 anos.
      bjs.

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  4. O meu primeiro contacto com a morte de alguém, aconteceu já numa fase da vida, em que a infância tinha terminado.
    E acho que, tirando alguns casos muito pontuais, deve-se, dentro de certos limites, poupar às crianças este "encontro"; têm tanto tempo e tantas ocasiões, ao longo da sua vida, para o fazerem...

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    1. os adultos incomodavam-me, mas as crianças muito mais. apenas assisti a uma quando era criança. a essas é que devíamos ser poupados. há mais de 30 anos e ainda hoje recordo tudo, como eu brincava com o miúdo e os dias seguintes, negros e tristes.

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