terça-feira, 19 de março de 2013

O Pai

   O menino, numa voz límpida como um passarinho que trinava na tília ao lado da oficina, pedia bonecas. Bastara-lhe erguer os olhos. O seu apelo silencioso derreteu, mais uma vez, um pai de rosto imperturbável, maxilar saliente, cabelo grisalho e sobrolho franzido que provocava duas rugas profundas que sulcavam verticalmente o meio das sobrancelhas. E lá iam os dois ao armazém da vila. Eram olhados de lado, as cabeças abanando em desprezo, comentando em voz baixa, um menino pedindo tais coisas quando devia seguir a profissão do pai, ser o sustento do velho quando já não pudesse trabalhar, e ele ainda incentivava tais desvarios. O pai fazia ouvidos moucos e olhava em frente, colocando uma mão protectora nos pequenos ombros da criança.
   O pai nunca sorria com a boca nem com os olhos e o menino, desde muito cedo, aprendera a olhar para os seus lábios direitos como uma aduela e para os seus olhos pretos como telhas de ardósia que abrigavam aquele corpo de um metro e setenta e sete centímetros de altura e oitenta e quatro quilos.
   As mãos do pai eram duas árvores cheias de vida, como que compensando o calor ausente do olhar e da boca. Procuravam a criança, uma mão e outra de cada vez, e cinco enormes dedos, como ramos sedentos, tacteavam o seu rostinho rechonchudo, deixando na pele macia o cheiro a óleo do motor dos automóveis. Cobriam-lhe a cara toda e as unhas farruscas deixavam pequenos sulcos como regatos de água num carreiro seco.
   Sentia o calo na ponta do indicador direito, a cicatriz na palma da mão esquerda, a aspereza dos dois polegares que esfregavam as suas têmporas quando se queixava de dores de cabeça. Os dedos afundavam-se no seu cabelo liso e macio, afagavam-lhe a nuca com um vigor que em outra pessoa, poderia magoar, mas ele gostava.
   Ao pequeno-almoço, uma mão afagava-lhe o cabelo enquanto a outra lhe enchia a caneca com o leite e misturava o chocolate em pó; ao fim da tarde, quando regressava da escola, uma segurava-lhe a mãozinha direita e ensinava-lhe as primeiras letras e a outra apertava-lhe o ombro esquerdo. Aos domingos, atavam-lhe os atacadores dos sapatos brilhantes de graxa preta.
   Era um pai tardio, inesperado aos cinquenta e dois anos. Uma noite, afugentou a solidão numa aldeia vizinha. Nove meses depois, uns dias após os Finados, uma mulher, já mãe de quatro filhos e marido emigrante, depositava-lhe nas mãos um bebé de olhos brilhantes e bochechas rosadas e quentes. A partir desse dia, amava pela primeira vez.
   Felizes, regressavam a casa, um pai idoso, taciturno, vestindo um fato-macaco azul-escuro manchado de óleo e o seu filho de cabelos lisos, rosto macio e olhos cintilantes, abraçado a uma boneca.

18 comentários:

  1. Excelente homenagem neste dia do Pai.
    A critica ao conto (muito bom), já a fiz pessoalmente.

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  2. muito bem resolvido. parabéns pelo esforço, e pelo resultado.

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    1. é verdade. o JM manteve a história.
      respondi-lhe com um grande like :)

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  3. Muito bonito, como sempre!
    Beijinhos :3

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  4. Gostei muito desta história.
    um beijinho
    Gábi

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  5. Um conto maravilhoso que aborda questões sensíveis, como a da boneca. Um toque subtil de tudo.

    beijinho.

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  6. Gostei muitíssimo! Adoro a elipse que fazes com o tema da boneca para na essência do texto falares do amor incondicional. Os pormenores são tão ricos como áridas são as mãos daquele pai extraordinário. 5 estrelas :)
    Bjs.

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    1. oh, muito obrigada! :)
      o João Máximo editou-o, mas manteve a ideia, claro.
      bjs.

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  7. Um grande homem.
    A história é linda e um grande homenagem aos pais.
    Ser pai é (e devia ser sempre) isso. Incondicional.
    Bjs

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    1. acho que é umas melhores histórias.
      tivesse eu jeito para o desenho, seria a ilustração da capa.
      bjs.

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