domingo, 28 de abril de 2013

Algodão-doce

   Há um longo tempo que a minha mão direita está pousada na pequena bancada cinzenta de fórmica. Com a outra mão, massajava lentamente o joelho esquerdo, que latejava devido a um antigo acidente.
   Permanecia sentada, hirta, contemplando o pálido círculo no chão. Ergui o olhar e procurei a sua origem. Através da pequena e baça vidraça de uma janela junto ao tecto, um translúcido raio de sol salpicado por pontinhos escuros de poeira derramava-se obliquamente. Qual David, enfrentava a incandescente iluminação artificial do centro comercial.
   Baixei a cabeça e olhei para quatro homens de meia-idade sentados em poltronas vermelhas dispostas num círculo largo. Dois folheavam jornais desportivos de clubes rivais e um dormitava com o queixo encostado na mão e o cotovelo apoiado no braço da poltrona.
   O último homem respirava pausadamente, com um sorriso nos lábios, enquanto olhava a mancha solar a seus pés. Um ou outro cabelo branco assomava, rebelde, numa cabeça quase calva. As mãos repousavam placidamente sobre o seu abdómen protuberante.
   - ‘Vô! - um grito esfuziante de uma criança entrecortou o silêncio do corredor, o eco reverberando no ar, como um diapasão ao menor som. Os dois velhotes interromperam a leitura dos jornais e o outro estrebuchou e abriu os olhos.
   Virei a cabeça. Ao longe, dois homens tentavam, sem sucesso, acalmar uma menina, que, impaciente, acabou por se soltar das suas mãos.
   Correu para junto das poltronas e sem rodeios, pulou para os joelhos do grande homem, abraçando-o. Dois bracitos magros e compridos apertaram com vigor o seu pescoço enrugado.
   - Gosto muito de ti! – exclamou, mostrando um sorriso desdentado.
   - Ora! – o avô disfarçou a emoção, amparando-a e levantando-se sem demora. Ignorou o peso da pequena criatura que se colava ao seu corpo como um molusco, com as pernas enroladas na sua cintura avantajada. – Está na hora? - perguntou aos dois homens que se tinham aproximado.
   - Sim, Pai – um deles respondeu. Olhou-os com ternura e fez um gesto cúmplice para o parceiro – Um para a viagem?
   - Um. – ele sorriu.
   Apoiando-me na bancada, ergui-me com dificuldade, com o joelho a palpitar de dor. Verti o açúcar no reservatório, liguei-o e rapidamente doces fios enovelaram-se no fino pau de madeira. Sob o olhar atento da menina, girei-o habilmente nos dedos, moldando uma nuvem doce e alva.
   Coroada por um diáfano raio de sol, observei aquela família feliz a partilhar um enorme e fofo algodão-doce.

12 comentários:

  1. Fizeste-me sorrir. Adorei. A família é mesmo o mais importante que temos :)

    Sobre o texto, só colocava uma vírgula LOL :P

    "Permanecia sentada, hirta, contemplando o pálido círculo no chão."

    Escreves muito bem Margarida! Mais uma vez Parabéns :P

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    1. sim, já corrigi, obrigada.
      :) o texto foi comentado antes de o publicar pelo João Roque, João Máximo e o Miguel. Ajudam-me muito, por isso o mérito também é deles.
      bjs.

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  2. Margarida
    ficou excelente e é mais uma página linda do teu livro de contos.
    Beijinho.

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  3. Os temas familiares são uma constante nos teus contos, o que revela ternura e carinho. A família é um forte apelo e uma fonte inesgotável de inspiração. :) Vês o que te disse? Depois de momentos pálidos, vêm grandes textos! :D

    beijinho.

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    1. sim, é verdade, Mark. são momentos felizes que existem em qualquer família, em cenários quotidianos. a família é aquela base, resta não cair em descrições mundanas e tentar engrandecer esses momentos.
      grande texto, 400 palavras, a etiqueta 250 palavras aos poucos perde o sentido (e eu sei o que queres dizer com 'grande', obrigada :))
      bjs.

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  4. é verdade que quanto mais trabalhamos os textos, melhores eles ficam. o problema, como acontece comigo, é a preguiça...

    de qualquer modo, o conto ficou óptimo. e nada melado... ;)

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    1. a preguiça é tramada, eu que o diga.
      sim, ficou muito bom. obrigada :)

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  5. Muito comovente. Mais uma bela história para o teu livro :)
    Bjs.

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