sábado, 7 de setembro de 2013

O César do Tio Camilo

   Poucos dias antes da morte do meu tio Camilo, acolhi o César.
   De início, ele não tinha nome.
   Contou-me, num dos habituais jantares de sexta-feira, que o tinha encontrado enroscado à porta de casa, ao regressar do hospital. Era um bicho escanzelado, só pele e ossos, assim como eu, ergueu um braço magríssimo, empunhando o garfo, e pensei que estaríamos bem um para o outro. Mirei-o, não se mexeu, passei por cima dele, empurrei a porta, fui à cozinha, abri uma lata de atum, que seria o meu jantar, a propósito, mas onde come um, comem dois, coloquei metade num pires e pousei-o à sua beira. Esperei, esperei, mas nem um pêlo se moveu e nem uma orelha tremeu, de modo que voltei a entrar em casa, deixei a porta encostada, fui à casa-de-banho, regressei para ir ver do bicho, o pires estava vazio, ele tinha desaparecido, encolhi os ombros, pelo menos, hoje não morres de fome, pensei eu, e fechei a porta. E onde estava o gato? Agora vem a melhor parte. Eis que vou dar com sua excelência sentada no meu cadeirão, apontava o bichano com o garfo enquanto falava, e fiquei a mirá-lo durante bastante tempo, ele muito compenetrado nas suas abluções. Quando acabou, bocejou, dignou-se a olhar-me, baixou um tudo ou nada a cabeça, como uma pequena vénia, deu duas voltas e deitou-se. E, terminou com um gesto brusco, espetando uma batata, ali o vês.
   Perguntei-lhe como se chamava, ao que me respondeu, com um encolher de ombros, que não tinha nome. Não me parece que ele se importe muito com isso. Basta ouvir o barulho dos tachos e aparece na cozinha, respondeu.
   Olhei para o gato, refastelado no lugar usurpado uns dias antes. Dormitava. Agora, faz parte da família. Até tem um lugar cativo, repliquei eu. Não achas que merece um?
   O meu tio franziu o sobrolho, pensativo e, depois de alguns segundos em silêncio, respondeu: César.
   E, como que aprovando o recente nome, o César abriu os olhos e ergueu a cabeça. Levantou-se, espreguiçou-se languidamente e saltou para o chão. Esfregou-se nas nossas pernas, ronronando, e voltou a subir para o cadeirão. Soltou um breve miado e tornou a deitar-se.
   Veni, vidi, vici, suspirou o meu tio, com sorriso que lhe iluminou, por um instante, o rosto macilento.

   Tinha dezoito anos e acabara de entrar para a faculdade. Partilhava um quarto numa residência universitária e, uma vez por mês, metia-me no barco até à margem sul. Por volta das sete e meia, aparecia à porta da sua casa, de início com uma caixa de bolinhos de chá comprada na pastelaria ao lado e atada primorosamente com uma fita vermelha. Depressa foi substituída por uma garrafa de vinho tinto. Da próxima vez, passa pelo Joaquim, ali ao fundo da rua. Tem lá um Dão da nossa terra, e pelo preço dos bolinhos, trazes uma pinga da boa, disse-me a meio do terceiro jantar.
   Púnhamos a conversa em dia e a noite terminava comigo a adormecer, invariavelmente, no sofá da sala de estar. Na manhã seguinte, acordava embrulhada num cobertor vermelho-escuro cheirando a naftalina, qual casulo, com a sua enorme águia de asas abertas estampada enrolada à minha volta, e ainda entalado debaixo dos pés.
   De todas as vezes que despertava, mesmo antes de abrir os olhos, retinha uma vaga ideia do tio Camilo tirar-me os sapatos, encolher-me as pernas, tapar-me e a maneira como executava tais acções, calcando devagar a roupa, com tanta ternura, sem deixar um pedaço do meu corpo desprotegido, com excepção da cabeça, fazia-me muito feliz e eu sorria, abrindo, por fim, os olhos.
   Naquela altura, ele viajava muito e quando o trabalho o obrigava a estar mais tempo longe de casa, o jantar era adiado para a sexta-feira seguinte. Era a época das novidades, das descobertas, dos amores e das desilusões e eu vivia em constante sobressalto, porque tinha muitas lágrimas para chorar e precisava muito dele, das suas palavras de reconforto, do seu sofá surrado e de adormecer entorpecida de álcool e emoções.
   A noite em que conheci o César não fora diferente das outras. Conversámos, bebemos, eu estiquei-me no velho sofá, com as pernas a baloiçar num braço, enquanto o tio Camilo entrava num apurado diálogo com o felino. Feitas as cedências de parte a parte, à semelhança de dois miúdos que firmavam um compromisso com cuspo e aperto de mão, aceitaram partilhar o trono. O tio sentou-se no cadeirão e o César ajeitou-se sobre uns joelhos ossudos, massajando-lhe as rótulas sobre as calças de fazenda castanhas. E eu fiquei a observá-los: um gato de pêlo amarelo, ronronando, feliz, enquanto o meu tio lhe fazia festas e sorria, cativado.

   Inconsolável, o César sentava-se, dias seguidos, junto à janela, protegido debaixo do cortinado. Escondia-se, estranhava o pequeno apartamento e miava, miava em parar. Dois anos em casa do tio Camilo tinham-no transformado num grandioso felino de patas compridas, pêlo brilhante e focinho redondo. Agora, eu via-o emagrecer a olhos vistos, não comia há cinco dias e soltava longos miados, que se propagavam no ar e se juntavam aos meus soluços. Chorávamos. Éramos dois órfãos.
   Vivera os últimos quatro meses em casa do tio Camilo, quando piorou. Apesar de refilar, Não há necessidade, Anita, eu ainda me aguento nas canetas, eu sabia que estava emocionado. Tentando esconder as lágrimas, eu abraçava-o muito. Ele passava uma mão esquelética pelo meu cabelo e dizia, Pronto, pronto, e dava-me palmadinhas na nuca. Sentíamos o tempo a fugir entre os dedos. Previsível, o fim aproximava-se a passos largos, como se o víssemos por uns binóculos.
   Quando ainda tinha forças para andar, o corpo reagindo aos tratamentos, o apetite indo e voltando conforme os humores, íamos ver um filme, ele era louco por cinema. Havia alturas que, sentindo-se bem-disposto, fazíamos maratonas cinéfilas. À tarde, víamos dois filmes seguidos, jantávamos e, a seguir, entrávamos na Cinemateca. Depois, passámos a vê-los em casa, as antigas e riscadas cassetes de vídeo foram tiradas do armário e o velho leitor acordou depois de anos a hibernar. Nos tempos mais recentes, tinha sido trocado por um leitor de DVD e pelos filmes nos canais de cabo. Passámos a devorar glórias de meados do século passado, musicais que ele adorava, e trauteávamos as músicas com as nossas vozes desafinadas, Hello, Dolly, well, hello, Dolly! It's so nice to have you back where you belong, ele amava a Barbra Streisand.
   Recordei-me desses momentos quando tomei uma decisão. Agarrei num gato apático, coloquei-o dentro da transportadora, enfiámo-nos no carro e regressámos a casa do tio Camilo. Mal o soltei, o César correu para o velho cadeirão. Cheirou-o, soltou um compungido e agradecido miado, deu as usuais duas voltas e acomodou-se. Eu abri a janela da sala. Estava uma tarde soalheira e o sol de Maio começou a aquecer a fria sala. Pus-me a cantar, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again!
   No dia seguinte, iria levar o César ao hospital veterinário que existia próximo de casa. Lembrava-me de uma veterinária morena e de felinos olhos verdes. O tio Camilo tinha ficado encantado com ela. Tinha esperança que ainda lá estivesse.

   O César e eu fazemos um par singular. Por vezes, estacamos à entrada da cozinha, olhamos para a bancada vazia e é como se o tio Camilo estivesse lá encostado a preparar o jantar. Quando notava que o observávamos, virava a cabeça e, entre resmungos e sorrisos, apontava o armário com a faca, Ele quer uma lata de atum. Um lorde, este gato. Atum em azeite, vejam só! Não bastava ao natural. Não bastava em óleo! Não, tem que ser em azeite. Nessas alturas, choro. Temos tantas saudades, não temos, César?, murmuro para um gato silencioso.
   Nos melhores dias, ele pula para o seu lugar favorito, mia consolado, dá um enorme bocejo, deixando entrever um céu-da-boca molhado e umas presas brilhantes, e deita-se. Dorme horas seguidas.
   Vou encontrá-lo na soleira da porta, sentado muito direito e a observar a rua, qual sentinela esperando pelo dono ausente. Reage ao afago que lhe dou atrás da orelha, virando o focinho e encostando-o à minha mão. Afasto-me de casa. O César segue-me. Fazemos o mesmo trajecto do tio Camilo. Vamos à leitaria da dona Clara, eu bebo um café enquanto ela lhe dá uma fatia de fiambre; de seguida, passamos pelo minimercado do senhor Joaquim. Ronda-o, interesseiro. Sabe que não sairá sem comer um pedacinho de bacalhau.
   Regressamos a casa. Trago uma garrafa de vinho e uma lata de atum em azeite. O César caminha ao meu lado, de cauda no ar, qual antena sintonizada aos sons da sua rua. A Ângela colocou-lhe um chip, caso um dia se perca nestas andanças. Não é muito provável. Aqui, toda a gente o conhece. É o César do Camilo, dizem, passados tantos anos.
   Agora, estou sentada no sofá e ele descansa no cadeirão. Ao seu lado, em cima da arca, encontram-se uma velha telefonia Philips, uma pilha de revistas National Geographic, cinco livros com as lombadas gastas, um pesado cinzeiro de cristal com rebuçados de fruta e um antiquado candeeiro de metal que o tio Camilo desencantara numa loja de velharias. Um solitário raio de sol espraia-se na base metálica. A sala resplandece.

9 comentários:

  1. Excelente conto, em todos os aspectos.
    De uma coisa estou certo; seria impossível alguém que não goste de gatos e conhecer os seus hábitos, escrevê-lo.

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  2. Gosto da preocupação com cada detalhe. O conto é bastante descritivo. Já referi o que pensava dos diálogos: é um estilo que vens desenvolvendo e com sucesso. A leitura flui sem esforço e não se perde 'o fio à meada'.

    Reparei, também, que dificilmente repetes palavras, o que nem sempre é fácil em grandes textos. Como tenho o mesmo cuidado (ou tento), constato. :)

    beijinho e continua!!

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    1. sim, obrigada. gosto dos diálogos assim, de facto, a leitura flui. quanto às palavras, há uma e outra repetição, dado que o cenário é idêntico, mas tento não repetir as palavras muitas vezes.
      esta história merecia um melhor desenvolvimento, mas deixaria de ser um conto. pode ser o começo de um romance, quem sabe? :)
      bjs.

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  3. Adorei o conto e agora lendo-o do principio ao fim faz todo o sentido e é mesmo emocionante como vão sendo palpáveis as 3 personagens que o habitam. Está muito bem escrito e consequentemente lê-se muito bem. Sinto no entanto que não fechaste o conto, ficando o final como que 'suspenso',o que também lhe dá uma insuspeitada leveza.
    Bjs.

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    1. obrigada, Arrakis.
      o fim fica na imaginação de cada um. gosto de pensar que o César vive a velhice na companhia das suas novas donas, na casa do TC na margem sul e rodeado de amor, de memórias e momentos felizes :)
      as saudades são imensas, claro, reflectem-se no caminho que eles fazem os dois, na maravilhosa frase "é o César do Camilo!" (acho-a fantástica, mesmo) :) e na sala imutável, com os mesmos objectos de sempre.
      bjs.

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  4. aceitei a sugestão do João Roque e alterei o título :)

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  5. deus está nos detalhes, e o deus das narrativas, então, praticamente vive neles e deles. os pormenores que tu dás (como o da marca da telefonia) enriquecem a narrativa e dão-lhe verosimilhança.
    gostei muito do conto completo, e reforço o que já te tinha dito: tem respiração, alonga-se, usa o tempo (até os diversos tempos da história).
    um excelente exercício para outras escritas mais demoradas (?)

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    1. obrigada.
      sim, gostei muito de o escrever. quanto a textos mais longos, vou tentar escrever um e depois logo se vê :)

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