terça-feira, 22 de outubro de 2013

Felisbela

Já não me recordo do seu nome. Era uma menina loira, magra e de olhos azuis e seria um ou dois anos mais nova do que eu. Vivia no nosso bairro com o avô, já de uma certa idade. Eu andava na primária e ela numa escola de ensino especial. Por vezes, brincávamos enquanto esperávamos a camioneta de regresso a casa, ao fim da tarde, na central de camionagem, enquanto o avô dela conversava com a minha mãe.

Andava eu pelos meus doze, quase treze anos, e fomos viver para a cidade. No meu antigo bairro, eles lá ficaram, ela com o seu andar trôpego, sempre a sorrir, apesar dos dentes tortos, da fala arrastada e da espuma que ficava nos cantos da boca.

Há muitos anos que não me lembrava dela. Aos poucos, começo a recordar-me de pessoas que saíram da minha vida há muito tempo, que me disseram muito em determinada altura e que a distância, temporal e física, guardou numa gaveta da memória, pronta para ser aberta quando menos esperamos e mais precisamos.

Lembrei-me em escrever uma história sobre essa menina, que perdi há muito tempo, mas que regressou em forma de doces recordações da minha infância. Será que é verdade o que dizem, que à medida que envelhecemos começamos a recordar um passado cada vez mais longínquo, procurando, assim, um tempo em que fomos mais felizes, o tempo da infância?

Não escrevo nada sobre o jantar do passado sábado, mas entre memórias de um passado longínquo e um passado recente, resta o mais importante, a amizade e momentos que nos marcam indelevelmente. Aos amigos dedico este conto.


Felisbela

   A Felisbela tinha muitos problemas de saúde, não falava, andava com os pés metidos para dentro, encurvada, com um sorriso torto sempre presente no rosto, um bonito sorriso torto nos seus lábios molhados de saliva. Os seus olhos límpidos, azuis clarinhos como um céu sem nuvens, engoliam tudo, casa, mãe, irmã, cão, gatos.
   Ela tinha nove anos quando eu entrei na primeira classe. Ao fim do dia, regressei a casa na companhia da mãe e ela já lá estava, com a avó. Abraçou-me com muita força, apertando-me de encontro ao seu corpo magro, tão contente que não parava de dar gritinhos estridentes e balbuciando palavras incoerentes. A Felisbela ria muito, a saliva escorrendo pelo queixo e molhando a sua camisola com o Rato Mickey estampado.
   Eu puxei-a pela mão e ela, alta, muito mais alta que eu, franzina e pequena demais para a idade, deixou-se levar, os pés arrastando pelo chão de madeira, os seus gritinhos acompanhando-nos pelas escadas acima até ao meu quarto.
   Mostrei-lhe os cadernos novos, imaculados, os livros da escola, de exercícios, os lápis, os marcadores com doze cores diferentes, as canetas, azul, vermelha e verde.
   Nos meses seguintes, as páginas já estavam cheias de letras acabadas de aprender, depois vieram as palavras, os números, as contas. O meu dedo deslizava sobre o papel, enquanto lhe soletrava as palavras. Por seu lado, ela trazia da escola cartolinas pintadas com desenhos abstractos, pinceladas de amarelos, castanhos, rosas, azuis, roxos, verdes. Eu olhava para as suas obras de arte e encontrava uma princesa loira com os olhos azuis mais bonitos do mundo.
   Num dia de Janeiro, a Felisbela adoeceu e foi para o hospital. Eu estava no segundo ano do ciclo. Depois das aulas, fui para casa, entrei no seu quarto e tirei as cartolinas que estavam coladas na parede, enrolei-as e dirigi-me para o hospital. Pendurei-as na parede ao lado da sua cama, de modo a que, quando abrisse os olhos, a primeira coisa que visse fosse uma bela princesa de olhos azuis e de sorriso bondoso.
   Passados alguns dias, ela abriu os olhos. Eu não estava lá. Quem me contou foi a minha avó, que tricotava ao seu lado todas as tardes as camisolas que eu vestiria durante três invernos, porque seriam para a Felisbela. Abriu os olhos, respirando pela máquina de respiração artificial e fixou as muitas pinturas com que eu tinha decorado o seu quarto, juntamente com os seus peluches preferidos e as nossas fotografias. A custo, levantou um braço e apontou para uma cartolina, muito gasta, de um desenho que tinha feito há anos. A avó descolou-a da parede e colocou-a no seu peito e depois chamou a enfermeira.
  A Felisbela ainda viveu duas semanas daquele rigoroso Inverno. A pintura, essa, tem quase trinta anos. Está pendurada no seu antigo quarto, onde dorme, neste momento, a sua sobrinha com o mesmo nome, abraçada a um peluche do Rato Mickey.

8 comentários:

  1. pela minha parte agradeço. gostei imenso, e comovi-me no final. e apercebi-me de que estava com muitas saudades de ler os teus contos, de ler uma espécie de secura lírica que há nas tuas histórias.

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  2. Muito bonito, Margarida. Sabes, ler os vossos contos leva-me a repensar se eu próprio não deveria apostar novamente neste género literário. Abandonei devido à manifesta falta de tempo e creio que os mesmos motivos se impõem neste período específico da minha vida em que não posso me alongar por aí além.

    beijinhos.

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    1. obrigada. deves apostar quando te sentires inspirado. uma história nunca deve ser forçada. estive algumas semanas sem escrever e esta surgiu de repente. escrevê-la até foi fácil. mas também não é muito grande. :)
      ajuda ter grandes mestres e ler muito, mas mesmo muito.
      bjs.

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  3. :) gostei como sempre :)

    Escreves super bem e cativas muito :D

    Bjs

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