domingo, 17 de novembro de 2013

O conto do Alexandre

   Homem no caixote do lixo

   O comboio desapareceu na curva. Não se ouvia o chilreio dos pássaros, nem o zumbido eléctrico na catenária, nem vozes no cais. Apenas um silêncio pesado, de chumbo, como as nuvens no céu.
   No ombro, segurava a mochila com meia dúzia de peças de roupa, um diário, um lápis, a máquina fotográfica. No peito, um coração despedaçado. Estilhaçara-se e caíra aos seus pés como lixo. Lixo que alguém recolhera e deitara no caixote, como coisa que já não prestava.
   Tinha sido tão feliz, amara tanto, tão intensamente. Fora tudo uma descoberta, sedução, mensagens de amor em conchas, corcódeas com iniciais gravadas, um pedido num banco de jardim, castelos de amor no ar. Avassalador e tão breve.
   Consentira nos segredos, nos enganos, anulara-se. Aos poucos, morria; procurava respostas e encontrava um muro. Ainda sonhou em derrubá-lo, confiança e amor bastavam, pensava. Como se enganara. Censura, palavras de circunstância, refeições desencontradas, a cama cada vez mais vazia, um gelo no olhar, um toque repelido. Desejou o sol, encontrou a escuridão.
   Tacteando no escuro, deixava passar um dia, depois outro e outro, criando coragem para o passo final. Queria a luz, sol e risos novamente.
   A conversa fora breve. Basta, merecia mais. Viu o alívio nos outros olhos, no seu peito ficou a dor. Despediram-se.
   Saiu da estação. A cidade surgia diante de si, majestosa, abria os braços de água para receber as suas mágoas.
   Quando os primeiros pingos de chuva lhe bateram no rosto, por fim chorou.

14 comentários:

  1. Excelente. E retrata um pouco o passado recente do Alexandre, num certo sentido.
    Ele vai gostar, estou certo.
    E tu...cada vez melhor!
    Parabéns.

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    1. num certo sentido, é o passado de muitos.
      espero que sim, o Alexandre não facilitou.
      obrigada. :)

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  2. Gostei sim.
    E há uma particularidade. Eu de facto esperava-o nas estações de comboio e comecei a andar de comboio por causa dele. Há também uma probabilidade de partir daqui, exatamente, de comboio para muito longe, estrangeiro, um dia. Não pensei que pegasses na minha vida para o título, que não facilitei. Eu sou previsivelmente demasiado autobiográfico, confesso. Não sei falar de outra coisa que não de mim, e eu proprio começo a ficar farto de mim sempre a falar de mim.
    Gostei muito. Obrigado, Margarida.
    A história acaba por ser um pouco o passado de muitos.

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    1. não sei se li essa particularidade. mas é um blogue pessoal, é natural que fales de ti.
      acabo por escrever sobre vocês, mesmo ficcionando. são os vossos contos :)
      obrigada.

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  3. Fabuloso. Se não tivesses dito de quem era o conto. Este conto é o rosto espelhado no(s) blogue(s) do Alexandre...

    Muito bom mesmo :D

    Mais uma vez está de Parabéns...

    Beijinhos e Bom Domingo

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  4. bravo, Margarida, mais uma belíssima história, tão bem escrita. gostei do narrador na terceira pessoa, dá logo um tom mais efabulatório ao conto.

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    1. obrigada.
      sim, nunca pensei na primeira pessoa, achei que não resultaria.

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  5. Adorei passar-se numa estação de comboios, tem tudo a ver com o Alexandre. Conseguiste materializar, de uma maneira tão intima, o momento da partida, aquele em que, por fim, um mundo acaba mas outro começa.
    A imagem final é muito bela.
    A tua escrita está cada vez mais emocionante. Parabéns. :)
    Bja.

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    1. eu adoro comboios, já o referi várias vezes :)
      obrigada. imaginemos um futuro risonho para esta personagem. depois da tempestade virá a bonança, com certeza.
      bjs.

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  6. A par da escrita, irrepreensível, como não seria de esperar outra coisa, acho que tem muito a ver com o Alexandre.

    Margarida, tu tens a extraordinária capacidade de unir as palavras às histórias de cada um e não escreves sem pôr um bocadinho de mim, do A do B e do C nos contos. Há sempre uma conexão qualquer e isso evidencia a tua capacidade de observação, até mesmo quando não conheces as pessoas. 'Conheces', aqui no sentido de pessoalmente, cara a cara.

    E depois é uma escrita tão leve e solta... Olha, adoro.

    beijinho.

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    1. obrigada. eu tento pegar em algo da pessoa a quem ofereço os contos, a partir do título que me deu. sei que, por vezes, não é fácil e, muitas vezes,demoro muito tempo a escrevê-los.
      (de momento,estou a enveredar pela leitura de contos, muitos e muito bons, para me inspirar).
      bjs.

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  7. Respostas
    1. :) óptimo. a crítica do editor é muito importante.

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