quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O conto do Francisco

   Guloseimas ou Travessuras
  
   Aproximava-se devagar, a respiração em suspenso, o peito cheio de ar como um balão. Observava a silhueta que se destacava sob o halo do candeeiro do jardim. Queria picotar à volta, destacá-la e levá-la consigo, como fazia em criança com os seus desenhos preferidos.
   Parou atrás dele e expirou o ar dos pulmões. Silenciosamente, ergueu os braços e colocou as mãos à frente dos seus olhos. Ele tacteou com as pontas dos dedos as suas mãos. Um polegar com uma unha bem cuidada rodeou o anel que trazia no dedo mindinho direito. Sentiu-o a respirar mais rapidamente. Notou que ele sorria e relaxou por fim.
   Os dedos elegantes percorreram as suas mãos, passaram para os pulsos escondidos sob a grossa camisola e detiveram-se na pulseira de cabedal, recordação das férias que tinham passado juntos. Subiram novamente, quais aranhas, e sentiu um leve beliscão na pele. Um gemido fingido de dor soou da sua garganta. Riu, virou a cabeça, beijou-o e poisou o queixo no seu ombro. Rodeou-lhe a cintura com os braços, fechando os olhos. Murmurou-lhe algo ao ouvido. Tinha um saquinho de bombons de chocolate com licor no bolso do casaco.
   Do outro lado da rua, um grupo de crianças andava de porta em porta a pedir doces. Um pirata de mão dada a uma princesa, um principezinho com uma raposa de peluche na mão, um superhomem com um braço no ombro de um homem-aranha, uma fada e um pikachu. Velas bruxuleavam nos parapeitos das janelas.

14 comentários:

  1. Muito bem conseguido. Por instantes, detive-me no espírito do Halloween. Tenho a certeza de que o Francisco ficará agradado.

    Resta-me acrescentar que a utilização do verbo 'bruxulear' não podia ser mais pertinente. :D

    um beijinho.

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    1. espero que sim. este título sugeria um conto mais divertido, mas mantive o estilo dos outros.
      obrigada :)
      bjs.

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  2. Gostei. Tu não sabes escrever mal. Mas há outros melhores, talvez porque não consegui "ver" o Francisco aqui...(talvez o defeito disso seja da minha parte)...

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    1. o Francisco do blogue é mais que aquilo que espelha, espero que sim, pelo menos. de qualquer modo, é uma ficção, :)
      eu gostei muito deste conto e de cada vez que o leio, ainda gosto mais.

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  3. Aiiii... quem me dera que alguém "bruxuleasse" pelos parapeitos das minhas janelas.

    ;-)

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    1. mas olha que aquele conto com as rosas não ficava nada atrás :)

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  4. Gostei. Achei-o muito intimo e o facto de só revelares o contexto em que estão no último parágrafo dá-lhe encanto especial. Achei, aliás, muito romântico.
    Bjs.

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    1. eu também, acho que por detrás do seu blogue, o Francisco é um rapaz muito romântico :)
      é um dos contos mais bonitos que já escrevi.
      bjs.

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  5. Fabuloso :)

    Adorei :)

    Muito Obrigado

    Beijinhos Grandes :)

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    1. tu merecias uma história bonita. vais ver que tudo irá acabar bem :)
      bjs.

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  6. Nenhum de nós é apenas o que se vê nos blogues, e ainda bem :)
    É mais um conto muito bonito e muito bem escrito.
    Eu tenho andado arredado dos blogues mas estou a voltar e fiquei feliz por reencontrar os teus contos de Natal.
    Vou ler os outros :)
    Beijos

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    1. :) e podes ter um conto também, se deres um título.
      bjs.

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  7. gosto muito da maneira como tu resolves os problemas, das soluções que arranjas para os desafios, quer aqueles que são levantados pelos títulos quer os desafios sugeridos pela própria narrativa.
    por exemplo, neste conto gostei muito da solução do pacote dos bombons levar o leitor para outro lado da rua, onde as crianças andam às guloseimas.
    e depois gosto muito do modo como os trazes sempre os contos para o teu território, ao mesmo tempo que os constróis à volta de uma ideia da pessoa a quem o conto é dedicado, neste caso o Francisco. quase como se cada um dos destinatários fosse uma espécie de conceito, criado por ti a partir da realidade dos teus amigos, a partir do qual tu constróis um universo ficcional.
    tudo isto, claro, para dizer que gostei muito :)

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    1. obrigada. sim, tens razão, cada um dos amigos a quem dedico o conto é moldado na minha imaginação. posso basear-me em textos do seus blogues, mas vou mais além e sempre dou um pouco de mim.

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