quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O conto do João Máximo

   E um sorriso no olhar, esse olhar mole e felino

   Depositou a rosa vermelha no decote, pintou os olhos e os lábios e calçou as luvas pretas até ao cotovelo. Com um gesto teatral, ergueu as mãos. Virando-se de repente, retirou o chapéu de plumas cor-de-rosa da caixa redonda aberta sobre a cama. Em frente ao espelho decorado com retratos de galãs de cinema, de bigodes finos, cigarros nos dedos esguios e olhares de predador, deu duas voltas e colocou-o na cabeça. Ajeitou-o e riu para o seu reflexo, coquete.
   Cantarolando baixinho, saiu do quarto, caminhou meneando as ancas, levantando o pesado vestido de folhos. Girou a cabeça de um lado para o outro, as plumas do chapéu esvoaçando no ar, e soltou uma sedutora gargalhada. A tarde estender-se-ia pela noite. Iria sorrir, sorrir muito, beber, sentar-se num joelho, receber uma carícia no pescoço, um beijo na face e beber champanhe. Ah! Champanhe, em taças redondas, quais moldes dos delicados seios da Maria Antonieta.
   Lentamente, desceu a longa escadaria, poisando os pequenos pés nos degraus alcatifados, prolongando o momento em que os aplausos irromperiam, esfuziantes.
   Raios de sol banhavam o vazio e decadente salão. Ela sorria. E um sorriso no olhar, esse olhar mole e felino, afagava cada um dos seus fantasmas. Invariavelmente, solicitar-lhe-iam que cantasse os seus êxitos, ao que acederia, sorrindo, conformada.
   Nessa noite, o filho foi encontrá-la tombada sobre um antiquado e desafinado piano, com a pauta de uma imemorável canção de amor espalhada aos seus pés.

17 comentários:

  1. Yes! Estavas super inspirada! Muito bonito e muito bem escrito. Obrigado!

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    1. :)
      confesso que, até agora, é o meu preferido.
      (e eu adoro vírgulas, eheheh)

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  2. "E um sorriso no olhar, esse olhar mole e felino, afagava cada um dos seus fantasmas."
    A maneira como aproveitaste o título para criar uma das mais belas metáforas do texto, está genial. Parabéns, Margarida, até agora, todos os contos foram excepcionais. Estás em grande forma.

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    1. não foi fácil, andei às voltas, mas lá consegui.
      obrigada. :)

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  3. É um conto tão visual! É fantástico como tu crias uma ambiente tão rico em tão poucas palavras. Parabéns :)

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  4. ##
    São estes textos com palavras esvoaçantes, que me deito nu, à espera que alguma delas possam cobrir a minha nudez...

    Gostei da tua prosa. Quanto ao meu comentário, saiu-me, mais logo quando me deitar vou lembrar de algumas palavras e esperar. Não é por causa do frio que está lá fora, que eu não me vou deitar nu...é já uma rotina.

    Beijocas

    @@

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  5. Muito bom, está cada vez melhor, a cada conto que escreves :D

    Beijinhos

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  6. Talvez o conto mais impessoal (em relação ao João).
    Talvez o conto mais pessoal (em relação a ti).
    Talvez o conto melhor, até agora (numa apreciação pessoal).

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    1. coloco muito de pessoal nos contos.
      o melhor para mim, também.

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  7. Estou sem palavras e até me arrepiei...maravilhoso! :)

    Beijinhos :)

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