sábado, 9 de novembro de 2013

O conto do Miguel

   Tudo isto, e o céu também

   Conheci dezenas de países. Tenho quatro passaportes cheios de carimbos, uma estante repleta de guias de viagens e um armário com recordações. De todas as vezes, regressava a casa de mãos vazias. No ano seguinte, recomeçava. Planeava cuidadosamente o itinerário, pesquisava, entusiasmado, os locais possíveis de te encontrar. Seria dessa vez, dizia para mim, seria num museu no Cairo, numa ponte sobre o Sena, numa esplanada de um bar em Nova Iorque, num jardim em Tóquio. Estarias sentado sob uma cerejeira e lerias o jornal vespertino.
   Conheci-te na cidade onde vivo, num pequeno livro de poemas comprado numa feira de livros usados. Amei-te ao primeiro verso. Pesquisei o teu nome na internet, fui dar com o teu blogue, enviei-te uma mensagem e, duas semanas depois, estávamos frente a frente no aeroporto do teu país. Poisei a mala e suspirei de alívio. Estavas ali, finalmente.
   Guardo o momento em que te vi e me encontrei. Um gigante de olhos verdes e enormes braços que me abraçou longamente. A primeira noite de amor e um poema que eu sabia de cor sussurrado ao teu ouvido. As tuas lágrimas, uma dedicatória no livro, um beijo apaixonado e o café da manhã na varanda do hotel.
   Guardo tudo isto, e o céu também. Nesta noite estrelada, um cometa rasa o infinito. Vejo-te a sorrir, firmemente agarrado à poeira cósmica. Acenas. Regresso ao teu livro de poemas. Choro baixinho, recordando o momento em que te encontrei e te perdi.

22 comentários:

  1. caraças, estou comovidíssimo, Margarida. não sei como é que consegues, mas todos estes contos revelam não só grande firmeza da mão que escreve, mas uma espantosa capacidade de criar parábolas que assentam com grande justeza nas pessoas a quem os contos são dirigidos. neste caso em particular, sinto-o em maior grau, porque me revejo de tantas maneiras no que escreves (até, digo-te em segredo para ninguém ouvir, numa tristeza quase impossível de dizer, e que ilumina a noite como a poeira cósmica da cauda de um cometa).

    tenho até pudor de publicar o conto que escrevi, que não passa de um exercício, e ao pé deste é um exercício diletante. mas regras são regras, e vou já para lá.

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  2. "A primeira noite de amor e um poema que eu sabia de cor sussurrado ao teu ouvido."

    Eu vou "roubar" esta frase. looooooool

    Quanto ao resto, estou com o João: no more words needed.

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    1. estas coisas não se dizem, fazem-se e pronto. :)
      qual é o teu poema?

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  3. O Miguel merece. É um homem encantador. Está muito bonito.

    beijinho.

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  4. Muito bom.
    É por estes exemplos, que os blogs nos transportam nas azas da escrita.
    São um bom pedaço de nós.

    1 blog PALAVRAS DO MAR

    http://diogo-mar.blogspot.com/


    2 A MINHA MANTINHA

    http://diogo7mar.blogspot.pt/

    blogs diferentes, mas com a mesma paixão, a escrita.

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    1. obrigada.
      depois irei passar pelos teus blogues.

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  5. Bem! Mais um certeiro... e este também é para juntar ao outros, verdade?

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  6. Fantástica. De uma sensibilidade que me deixa sempre sem palavras.

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    1. obrigada.
      aproveiro para indicar o link do conto do Miguel.
      http://innersmile.livejournal.com/931778.html
      e se escrevo assim, muito devo a ele :)

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  7. Estou arrepiado.Lindo e tão bem escrito. Andas inspirada :)
    Bjs.

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  8. Adorei conhecer mais do Miguel através das tuas palavras - ainda que "ficcionais". Lindo conto!

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