sábado, 2 de novembro de 2013

O conto do Ribatejano

   Eu quero-te na minha vida…

   O homem mais pequeno do mundo sabia ler as lágrimas. A água evaporava e os cristais de cloreto de sódio brilhavam no sítio onde elas tombavam.
   A sua vida girava em torno das histórias que as lágrimas contavam. Se eram de amor, ele sonhava com beijos ao pôr-do-sol; de dor e o seu coraçãozinho encolhia-se muito, cheio de angústia; de felicidade e rodopiava de braços abertos, rindo sem parar.
   Na véspera de natal, o homem mais pequeno do mundo encontrou uma lágrima colada com um lacinho vermelho na porta de casa. Delicadamente, segurou-a com a ponta do seu dedo minúsculo, entrou, ajoelhou-se junto à árvore de natal e colocou-a no chão. Com um sorriso, ajeitou o lacinho do único presente que tinha recebido até então e sentou-se na poltrona. Esperou pacientemente pela meia-noite. Com o calor da sala, a água dissipava-se, os cristais refulgindo na tijoleira.
   À hora certa, aproximou-se, ansioso. Debruçou-se e leu baixinho «Eu quero-te na minha vida…». Arregalou os olhos, surpreso. Quem teria chorado tal lágrima? Seria mesmo para ele, o homem mais pequeno do mundo, que passava incólume entre os pingos da chuva, mas não conseguia fugir às tormentas das lágrimas?
   Chorando de felicidade, adormeceu enroscado ao seu pequeno tesouro.
   No dia de natal, acordou e a primeira coisa que viu foi um terno sorriso de um anjo. Nas palmas das suas mãos, os cristais das lágrimas do homem mais pequeno do mundo reluziam: «Sou o homem mais feliz do mundo.»

17 comentários:

  1. gostei muito, Margarida. já tinha saudades desta delicadeza e da capacidade que tu tens de dar ressonâncias às palavras. O Ribatejano merece um conto tão bonito e certamente vai ficar feliz.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. obrigada.
      espero que o Ribatejano também goste :)

      Eliminar
  2. Reli o conto e descobri-lhe um toque saramaguiano. Não no estilo é claro, mas num certo universo de referencias: um homem que sabe ler lagrimas é como uma mulher que consegue ver o interior das pessoas. Esta mesmo muito bom o conto.

    miguel

    ResponderEliminar
  3. Está muito bonito, Margarida. Mal posso esperar pelo meu. :)

    O João não consegue deixar a nossa companhia, eheheh... ;D

    beijinho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. obrigada.
      vais aguardar ainda uns tempos. escrevo por ordem do pedido :)
      bjs.

      Eliminar
  4. Seria de esperar que o Ribatejano tecesse aqui a mais maravilhosa opinião sobre este texto que lhe é dedicado. O que não sabem porém é que até o Ribatejano é um tipo, que apesar de todos os elogios que vai recebendo, tem momentos em que fica totalmente sem palavras.

    Ao ler o texto (e confesso que o irei fazer de novo) senti-me o homem mais pequeno do mundo. Quanto à lágrima... um dia escreverei algo sobre o assunto.

    Margarida... vou ter que ter mais cuidado com o que escrevo no meu blogue, já que lês muito mais do que realmente escrevo.

    Quanto aos elogios, tens que os ler neste comentário.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. o homem mais pequeno do mundo tem agora a sua própria história de amor. já não é o homem mais pequeno do mundo :)
      obrigada.

      Eliminar
    2. O homem continua pequeno, a história é que o faz parecer grande.

      Mas isso é outra história...

      Eliminar
  5. Lindo e enternecedor. Adorei. Cada vez escreves melhor. :)
    Bjs.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. obrigada. é um enorme desafio, este. são histórias tão diferentes que quero contar, graças ao vosso título. :)
      bjs.

      Eliminar
  6. Awww! Está muito bonito e enternecedor! Adorei! ^^
    Beijnihos :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. :) agora pareceste um daqueles animes que fecham os olhinhos em cruz e ficam amorosos.
      obrigada.
      bjs.

      Eliminar