segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O conto do Arrakis

   Um presente envenenado

   Um barulho de testos, panelas e talheres chegava-lhe aos ouvidos.
Tinha-se postado à entrada da cozinha e olhava, curiosa. O rapaz mexia-se com desenvoltura, enquanto lhe dirigia palavras que não compreendia. Achava simpático o seu tom de voz e gostava do cheiro que entrava pelas suas narinas pequeninas, negras, húmidas, que lhe fazia lamber os beiços, ondular os bigodes e tremeluzir os olhos.
   Como se estivesse numa passerelle, aproximou-se languidamente e roçou o quadril pela sua perna. De seguida, saltou para uma cadeira e ficou a observá-lo, como uma rainha no seu trono. Ele cozinhava, conversava e ela fitava-o muito atenta. Por fim, ele tirou um pires e uma pequena lata do armário debaixo do lava-loiça e abriu-a. Ela espetou as pequenas orelhas com o som. Miando de gula, deu um saltou para o chão.
   - És uma diva! – ele riu, fazendo-lhe uma festa. Como resposta, a cauda bateu caprichosamente na sua perna. – Sim, és – repetiu, regressando ao fogão. Quando virou a cabeça, encontrou um pires brilhando como se tivesse sido lavado e a cozinha vazia. Suspirou. – Comeu e desapareceu, a rainha…
   Muito tempo depois, preparou a mesa da sala com a loiça de natal, os talheres dourados, os copos de cristal. Olhou, então, para o saco de papel que estava tombado junto à lareira. Uma ponta mordiscada de um laço dourado espreitava. – Gata! Oh, gata! – correu para o saco e abriu-o. Lá dentro, em cima da caixa embrulhada e enrolado no laço dourado, jazia um pardalito.

17 comentários:

  1. Um pouco nostálgico :)

    Mas muito bom para o titulo escolhido


    Beijinhos

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    1. obrigada :)
      ainda no sábado eu dizia que não tinha ideia nenhuma para este título. afinal, bastou olhar à minha volta.
      na aldeia, os gatos da tua avó não lhe levavam presentinhos como este? :D
      bjs.

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  2. Adorei.
    E adorei ainda mais imaginar o Arrakis como o personagem.
    Eu tenho uma curiosidade imensa em saber como ele é no quotidiano, por exemplo, de uma cozinha. E este conto transportou-me para essa imaginação. Ex-aequo com o do Mark.

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  3. Excelente este conto, e com um final espectacular.
    O curioso é que quase até ao final, quando referes a mesa de Natal, até aí, eu me revi completamente no conto; quando cozinho, e a Teka faz exactamente o que descreves "forçando-me" a deitar-lhe mais comida e depois abandona o local, altiva e como se eu não existisse...

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    1. obrigada. o final teria que ser assim. embora o título signifique outra coisa, não pensei em mais nada a não ser na bette davis :) diva, mas agradece à sua maneira.

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  4. :)
    ainda dizem que as divas não são gratas.

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  5. Gostei imenso e revejo-me perfeitamente no personagem. O Twist final está muito bem agarrado, até porque o título que te dei não era nada fácil. Adorei. Muito obrigado Margarida.
    Bjs.

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    1. muito obrigada, Arrakis. ainda bem que gostaste, fico contente :)
      bjs.

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  6. Está muito bonito. Algo triste, nostálgico. É um dos meus favoritos, definitivamente.

    um beijinho.

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    1. nostálgico... nunca pensei nisso, talvez por se referir ao Natal. não acho triste, acho belo e comovente. a gata dar-lhe aquele presente tão especial :)
      obrigada.
      bjs.

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  7. Também gostei bastante. Tens de publicar os teus contos num livro :-) (num livro a sério, com papel, que eu sou um velho do restelo no que toca a modernices de ebooks...)

    Beijinhs

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    1. informo o estimado leitor que a minha editora é a index ebooks e o livro estará nos escaparates electrónicos brevemente :) será em formato ebook, claro, mas terás oportunidade de, à semelhança de outras publicações, teres o livro em papel, :)
      obrigada pelas palavras.
      eu gosto de ebooks e do papel. numa coisinha pequenina como um kindle ou um leitor kobo podes guardar milhares de livros:)
      bjs.

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  8. Também gostei do conto. Ele fez-me recordar uma nostálgica manhã de Natal, em que libertei 1 piriquito que tinha, como prenda de Natal para ele, e este, depois de sair da gaiola e partindo rumo à sua liberdade, parou passado pouco tempo num muro, onde rapidamente foi apanhado por um gato. Fiquei bastante triste com isso mas pronto, a Natureza é mesmo assim.

    Beijinhos

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    1. bem, isso é que foi ironia do destino.
      já tive um casal de periquitos, chamavam-se romeu e julieta, despachei-os para casa de uns tios. era muito drama na cozinha, eles e os gatos, que já existiam :p
      bjs.

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