terça-feira, 18 de novembro de 2014

O conto do Horatius

   As Tuas Velas ao Longe

   
Arrastando-me pelo chão de terra batida, as pernas pesadas, amparo-me a um velho cajado. Uma fina poeira, tão leve como a farinha acabada de moer, levanta-se sob os sapatos mascarrados.
   Amiúde, a pieira assobia, como um pequeno búzio escondido no meu peito. Já não tenho mais forças. Procuro uma rocha na berma, sento-me e fecho os olhos. Com o queixo apoiado nas mãos sobre o cajado, permito-me uns momentos de descanso. Mas o instante transforma-se em minutos e os minutos em horas. Estou tão cansado.
   Por fim, abro os olhos e perscruto o horizonte. No cimo do monte, destacas-te entre uma moldura de nuvens cinzentas. Branco e imponente.
   Uma longa caminhada. Suspiro. Tento encontrar forças para me levantar e um arrepio de frio percorre-me o velho corpo. Ninguém na estrada e a noite aproxima-se. Sinto o seu pesado manto a cobrir-me os ombros mirrados. Uma mão agarra no bordão, a outra aperta o casaco; o vento começa a soprar forte. Ao longe, as tuas velas giram devagar. Estou quase lá, falta tão pouco.
   Sinto-me a fraquejar, até que uma mão pequenina envolve a minha por cima do cajado. Um menino de sorriso desdentado e maroto, caracóis castanhos salpicados de pó e olhos brilhantes empurra-me devagar.
   Seguimos lado a lado. Recupero as minhas forças. Endireito as costas, deixo cair o bordão, as pernas fortalecem-se. Caminho na tua direcção. As tuas velas giram cada vez mais rápido.
   Com um gesto vigoroso, empurro a porta. Estou em casa.

10 comentários:

  1. gostei muito. como sempre, arranjas maneiras muito originais, mas totalmente eficazes, de resolver o 'problema' dos títulos. e a progressão narrativa está muito bem gerida.

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    1. demoro bastante tempo a pensar na história mais adequada ao título que me dão. desta, eu pensei logo de início que seria sobre um velho moleiro. o texto surge depois. resolveu-se assim.

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  2. O conto está bem urdido à volta do título.
    Não conhecendo o autor da frase, presumo no entanto, pelo que de ti conheço, que haverá uma conexão correcta.

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  3. Os teus contos são sempre muito emotivos. E desvendo sempre um pouco de tristeza neles. Têm esse toque, esse travo, melhor dizendo, de dor. Posso estar enganado, atenção, mas sinto isso. E gosto muito. Talvez seja masoquismo.

    um beijinho.

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    1. como escrevi no último post, a velhice e a morte são temas de muitos dos meus contos.
      e não sei como, consigo agarrar algo da pessoa que me dá o título. não é que vos conheça assim tanto, mas com as voltas que a história dá (escrevo e apago as frases muitas vezes), às vezes até eu me surpreendo como é que toquei no ponto...
      bjs.

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  4. Apesar de já te to ter dito por email, digo-o agora aqui: gostei bastante. Mesmo muito. E diz muito de mim, e de coisas de mim que não sonhas sequer. E chegaste lá. Se acreditasse em adivinhos, diria que és uma :)

    Uma beijoca de obrigado :)

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    1. só não fico excêntrica... ;)
      eu não forço nada, mas já me aconteceram coisas parecidas... o que tem de ser, tem de ser. se é um dom, não o aprofundo. quando chega a hora, ele dá de si:)
      bjs.

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