segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O conto do João

   Ósculo
   - É a noite mais bela do ano – uma voz soou na escuridão.
   Olhou para o lado. O desconhecido mantinha-se afastado. Só a voz suave lhe chegara aos ouvidos.
   - Perdão? – inquiriu, enterrando as mãos no fundo dos bolsos da gabardina.
   - Hoje é a noite mais bela do ano – o estranho repetiu. - Daqui a cinco minutos, para ser mais preciso - saiu para a claridade do passeio e parou sob a luz amarela do candeeiro.
   - Ah…
   Tudo o que via era um jovem loiro vestido de branco, no meio da claridade.
   - Vai sacrificar-se tanto. Porquê? Nós não o merecemos – murmurou, desencantado, mais para si próprio.
   - Por amor – o jovem sorriu. – Não é suficiente?
   - Fazemos mal, tanto mal… Não merecemos, não.
   - Julga-o louco – o outro sorriu, abanando a cabeça.- Por nos amar tanto assim, incondicionalmente?
   Delicadamente, apertou-lhe o braço.
   – É a noite da esperança, a noite da alegria.
   - Oiça… - tentou soltar-se, sem sucesso. Queria afastar-se, continuar a andar sem rumo, até o cansaço chegar, encostar-se e fechar os olhos uns momentos.
   - Nasceu! – o jovem exclamou, de repente.
   Como um anjo, brilhava debaixo do candeeiro.
   Então, ergueu uma mão com os dedos afastados e esperou. Olhou-o fixamente.
   O gesto, por fim, fê-lo sorrir. Devagar, juntou as gemas dos dedos às dele.
   - Feliz natal – o jovem riu.
   Ecoou na noite mais bela do ano uma melodia tão leve e doce como uma borboleta a beijar uma rosa.
   - Feliz natal - respondeu.

19 comentários:

  1. Lindíssimo. Um dos meus preferidos. E já com o cheirinho a Natal, hummmmm. :)

    um beijinho!

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    1. sim, também acho. é o último conto. o João passou por tanto, que queria escrever uma história bonita.
      e a noite mais bela do ano, claro.
      bjs.

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  2. gostei muito. está muito subtil.
    e tens mão para os diálogos.

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  3. Querida Margarida, foi uma bela prenda de anos antecipada que me deste! Estou muito emocionado com o conto, adorei! Está lindíssimo!
    Muito obrigado do fundo do meu coração!
    Um beijinho muito grande :)

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    1. fico feliz por teres gostado, João.
      tudo vai correr bem. não é fácil, mas vai melhorar, sim.
      bjs.

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  4. Fabuloso, um dos melhores desta série :)

    Beijinhos

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  5. Concordo com o Miguel. Que eu me lembre parece ser a primeira vez que usas o diálogo e ficou muito bem.

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    1. um dos primeiros contos que escrevi, a virgem maria, também tinha diálogos :)
      não me aventuro muito, porque falta-me a segurança. é tentar mais vezes.

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  6. Querida Margarida
    Há um conto de Natal de Miguel Torga, que adoro ler. De vez em quando, abro o livro na página 67, e emociono-me com o velho Garrinchas.

    Depois li teu livro “Instantâneos”, que tem um conto que se intitula “Natal”, de que gostei imenso.
    Este conto dedicado ao João, tem uma mensagem fantástica, “ ter esperança, acreditar e caminhar de mãos dadas”.
    Eu vou lendo o blog do João, e surpreende-me sempre a força e entusiasmo que ele coloca nos textos que partilha connosco, onde regista cada etapa duma enorme escalada. O João merece este conto.

    Parabéns Margarida. Um beijinho

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    1. esse conto foi um dos meus primeiros :) e eu adoro MT.
      o João passou por muita coisa triste nos últimos tempos, mas tem uma enorme força de vontade e consegue enfrentar as adversidades. sim, merece.
      obrigada pelas bonitas palavras, Lídia.
      bjs.

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  7. Um conto não para ler, mas sim mas saborear, mastigar e digerir. Parabéns Margarida!

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  8. Receei mas houve um final feliz. Adoro finais felizes!
    Lindo conto!

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    1. queres dizer que eu não escrevo finais felizes?
      bem, tens razão. a maior parte das minhas pequenas histórias são tristes e melancólicas.
      mas o último conto deste ano teve um final muito feliz e cheio de amor e esperança na humanidade :)

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    2. Não, não, não! De forma alguma!
      Neste conto, receei que fosse outro o final. E sabes por quê? Simplesmente, porque a sua escrita faz-me facilmente "entrar no clima". Adoro seus contos!

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    3. :) obrigada! festas ao Kibon e ao Tejo, os cães natalícios.

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