segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O conto do Miguel

   Uma vida roubada

   Estancou. Agarrou na camisola como se, com esse gesto, apertasse o próprio coração. Fechou a mão com força, os nós dos dedos tornaram-se brancos, salientes, a mão cadavérica tremendo. Lágrimas afloraram nos olhos baços. Pregas de pele pendiam do rosto. Via-se ao espelho do salão do hotel, não se reconhecia. Quem era ele? Como tinha ali chegado, quantos anos tinha?
   O homem surgiu no espelho. A voz suave roçou-lhe nos ouvidos:
   - Vamos, Pai.
   Pai? Virou a cabeça e mirou o estranho. Quando fora pai? Quando amara para ter um filho, quando o embalara, embevecido?
   Como tinha mirrado tanto? Tinha de esticar o pescoço para poder olhar aquele grande homem. Houve um tempo, sim, recordava-se, que era alto, tão alto que tinha de baixar a cabeça sempre que entrava em casa, para não bater na trave da entrada. Quando deixou de bater? Quando é que a sua vida começou a encolher, a cabeça a sobrar?
   Tantos espaços vazios dentro de si tinha agora.
   - Onde vamos? – perguntou, por fim.
   - Trouxe-o para almoçar, Pai. Lembra-se? Era aqui que costumava trazer a Mãe todos os anos, no seu aniversário.
   - A Mãe está aqui? – ainda tremia.
   Cinco anos passados e ele repetia a mesma pergunta.
   - Está, filho? A Mãe está aqui?
   Entraram na sala de jantar. Parou, assustado. Ao longe, uma mesa de dois lugares, com um arranjo de rosas brancas ao centro.
   Recordou-se, por fim. Chorando, murmurou:
   - A minha vida, filho. Roubaram-me a minha vida…

12 comentários:

  1. incrível, Margarida, como consegues tocar sempre a corda sensível. e tão bem escrito, tão fluido, tão breve e intenso.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. :)
      não tinha ideia até começar a escrever, nesta pequena hora do almoço.
      obrigada.

      Eliminar
  2. Ah, que tocante!! Você tem um dom, Margarida, que é soberbo.

    ResponderEliminar
  3. Foste ao ponto certo, sem ser demasiado óbvio.
    Muito bom...

    ResponderEliminar
  4. Um retrato do que de melhor podemos fazer pelos nossos velhos: dar-lhe atenção. Nem que seja apenas um pouquinho. Eles irão sentir a diferença...
    Grande Margarida!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu não saberia lidar com a demência. enfim, teria de me adaptar. com a falta do ente querido, é muito, muito difícil... isso eu sei.

      Eliminar