quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O conto do Fragmentos Repartidos

   Se não fosses meu amigo
   
   A praia estava vazia àquela hora, enquanto esperávamos que o sol nascesse, sentados ao fundo das escadas, as bicicletas encostadas no pilar do passadiço lá no alto. À nossa frente, ouvíamos o incessante ribombar das ondas coroadas de espuma que rebentavam na areia. Esperávamos pela primeira aurora do mês de Dezembro, com as pernas encolhidas e o queixo assente nos joelhos. Tiritavas de frio, a gola levantada do casaco de bombazine e o gorro não eram suficientes. Por baixo do camisolão de lã, espreitava a tua camisola de pijama. Quinze minutos antes, tinha-te acordado com meia dúzia de pedrinhas atiradas ao vidro da janela do teu quarto. Abriste um pouco, consegui vislumbrar uma manga azul, acenaste e alguns minutos depois, arrastando a bicicleta, apareceste nas traseiras da casa.
   Não tiravas os olhos da grande bola laranja que começava a crescer num céu de Inverno sem nuvens. Sem o saber, guardavas um tesouro no bolso de dentro do casaco. Na semana anterior, tinhas-me pedido o canivete emprestado. Encontraste um pedaço de madeira no pinhal ao pé da tua casa e talhaste uma âncora, o meu nome e a data do meu nascimento. Nesse dia, eu fazia quinze anos.
   Durante muito tempo, eu não consegui dizer uma palavra, apertando-o até os nós dos dedos ficarem brancos. 
   Se não fosses meu amigo, hoje não estaria neste navio, no outro lado do mundo, onde é Verão. Faço quarenta anos e vejo o teu rosto no sol que agora nasce.

13 comentários:

  1. Muito bom, gostei mesmo muito :)

    Beijinhos

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  2. Obrigado Margarida! O texto está muito bom e valeu a pena a espera da minha vez. Oportunamente irei escrever umas palavras no blog em função deste bonito conto, que, à semelhança dos outros está muito bem escrito.
    Mais uma vez obrigado pelo tempo dedicado à sua escrita. :-)

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  3. Gostei muito deste conto. Tu escreves bem, e este é doce, T ransmite paz, e boas recordações. Beijos. Lídia

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  4. Muito bem. Um conto que fala de um tempo passado. Muito doce, e cheio de afeto. Um bj. Lídia

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  5. :-) Na verdade sinto-me no outro lado do mundo em relação a este meu amigo! Bonito conto, quanto mais ver o rosto de alguém no sol.

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    Respostas
    1. eu olho muitas vezes para o sol e vejo muitos rostos do passado.

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