segunda-feira, 10 de julho de 2017

A perna

   Pensou que tinha morrido. Deu-lhe, desde criança, uma vida breve. As más recordações da infância, nas muitas tardes passadas no trabalho da sua mãe, resumiam-se àquela mulher franzida, e no azedume com que lhe falava, da mesma forma que se dirigia às colegas, como se as elas fossem culpadas pela sua deficiência, e no tom estridente que empregava. Vinte e cinco anos depois, fica surpreendida por a ver. Não tem dúvidas, embora esteja um pouco longe. É ela, com a perna direita defeituosa a baloiçar no ar, apoiando o corpo naquelas duas muletas tão familiares. O que recorda, agora, tantos anos depois, é ela a subir o pequeno lanço de escadas de granito do trabalho, e no olhar que lhe lança, o rosto magríssimo que termina num queixo pontiagudo e na mal-formada perna direita dobrada naquela forma estranha, como uma perna de rã sem vigor.












Exposição de Rodrigues da Costa, patente em vários locais da cidade de Viseu.

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