quinta-feira, 20 de julho de 2017

Camilha

   Volto atrás, ali ao post do Miguel. Faz uma referência à camilha com braseira. Em casa da minha avó também havia uma, na sala.
   O frio, o frio e a chuva, aqueles invernos de antigamente, nas férias do natal da aldeia, eram o mais difícil de aguentar. Mas, a esses momentos maus, associam-se outros, boas recordações, como as tardes passadas ao redor da camilha.
   Depois das querelas das irmãs, dividiu-se a grande casa em duas. Os meus avós foram obrigados a transformar a loja numa cozinha, muito escura, porque só tinha uma pequena janela, lareira a um canto, lava-loiça com uma cuba no canto oposto, um fogão, só muito mais tarde tivemos um frigorífico, oferecido, a grande mesa ao centro, e uma comprida lâmpada no tecto que passava a maior parte do tempo a tremer e a apagar-se, de modo que havia um candeeiro a petróleo sobre a lareira, que estava quase sempre aceso.
   Não havia acesso interior da cozinha para o resto da casa. No pequeno pátio, tiveram de construir umas escadas em cimento, toscamente, no meio de pequenas rochas, para o primeiro andar, abrindo-se a porta directamente para a sala. E, durante o inverno, lá subia a minha avó com a braseira, desde a cozinha, o mais rapidamente possível para não arrefecer, e colocava-a no buraco da camilha. Baixava as duas toalhas, uma grande de tecido, redonda, que tapava a mesa, e uma de renda com franjas, nas quais eu entretinha-me a fazer pequenas tranças.
   Ora a ver televisão, ora a jogar algum jogo que havia lá por casa, cartas, Ludo, cubos de madeira com as figuras da Disney recebidos num Natal, mas, principalmente, a ler as revistas do Pato Donald e afins, ainda e durante muito tempo em português do Brasil, com aqueles anúncios dos cursos à distância (violão, rádio e telecomunicações), e do Boticário na contracapa (ainda faltaria muitos anos até entrar num Boticário em Portugal), ou do Tex e do Condor, assim passava as tardes chuvosas e frias das férias do Natal, apoiando os pés descalços na madeira, tão próximo quanto possível da braseira, até começar a sentir o calor na ponta dos dedos. Retirava os pés num instante e voltava a pô-los lá, um gesto que se repetia até as cinzas se apagarem e a braseira arrefecer e, como acontecia todos os anos, até deixar de haver férias de Natal na aldeia, as meias grossas de feltro ficavam sempre chamuscadas nas pontas.

5 comentários:

  1. Ah, fazer tranças com as franjas da toalha da camilha, um must! Era ocupação obrigatória quando se estava a ver tv :-)

    Naquelas paragens, a mesa com a braseira era um bem de primeira necessidade.

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    1. sim, sem dúvida, considerando que nem radiador havia.
      conhecias as famosas botijas de água quente, que não passavam de garrafas de vinho, mas somente as escuras, cheias de água quente da panela da lareira, que se enfiavam nas meias de feltro? naquelas meias muito queimadas nas pontas? :D

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    2. na aldeia onde estive usavam botijas eléctricas. sim, não havia radiadores, então um bom bocado antes de ir para a cama, punham-se as botijas a aquecer. normalmente iam para o fundo da cama, junto aos pés, mas ahgora pergunto-me porque é que nunca me lembrei de as encostar à barriga, acho que ficava mais quentinho. mas, claro, se calhar até fazia isso, mas já passou tanto tempo. ainda faltavam mais de duas décadas para o século passado acabar, credo!

      na casa de trás-os-montes havia um aquecedor a gás, levava uma garrafa de gás, dava uma chama azul, e aquecia bem, mas era só a sala, o resto da casa permanecia um gelo inqualificável. ah, e nesta casa de T-O-M não havia água quente, só gelada. Banho?!, que banho?

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    3. banho ao sábado à tarde, :P acartavam-se dois garrafões cheios de água quente das panelas da lareira.
      o resto da semana era à gato, lavando-se a cara com a água ainda tépida da garrafa verde escura.
      pés? encostava a garrafa ao peito, bem abraçada e bem encolhida na cama :D

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    4. garrafões eram os cântaros azuis que ainda se vêem nas drogarias.

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